Dólar bate R$ 5,19 e encarece diesel do agro em MS
Moeda americana fecha na maior cotação desde agosto, pressionada por juros nos EUA; alta reduz margem do exportador de MS
Reprodução/ipea.gov.br (imagem ilustrativa)
O dólar fechou a quinta-feira, 24 de setembro de 2026, cotado a R$ 5,1931, alta de 0,47% e o maior valor de fechamento desde 28 de agosto, quando a moeda havia marcado R$ 5,1961. O movimento, puxado pelo fortalecimento do dólar no exterior, chega em meio à expectativa de novos aumentos de juros nos Estados Unidos e derruba parte do alívio cambial que produtores e indústrias de Mato Grosso do Sul vinham colhendo ao longo do ano — no acumulado de 2026, a moeda americana ainda recua 5,39%.
A sessão foi de nervosismo generalizado nos mercados. Depois de tocar a mínima de R$ 5,1653 logo pela manhã, o dólar disparou até R$ 5,2020 no início da tarde, acompanhando a alta dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano (Treasuries), pressionados por preocupações com a inflação nos Estados Unidos e pela perspectiva de o Federal Reserve elevar ainda mais sua taxa básica, hoje entre 3,75% e 4,00%. "A taxa dos títulos norte-americanos está bem acelerada, bem acima dos 5%, e o dólar se fortaleceu lá fora também. Isso faz com que o real se desvalorize", disse João Oliveira, head da mesa de operações do Banco Moneycorp.
Combustível mais caro pesa no frete da soja e no diesel do produtorUm dólar mais caro tem efeito direto sobre o custo do diesel usado nas colheitadeiras e nos caminhões que levam a produção de Mato Grosso do Sul até os portos, já que boa parte da cadeia de combustíveis e insumos agrícolas é referenciada em moeda americana. Ao mesmo tempo, para quem exporta — caso de frigoríficos, fábricas de celulose e tradings de grãos instaladas no estado — a alta da moeda tende a favorecer a receita em reais sobre vendas já fechadas em dólar, embora o cenário de instabilidade dificulte o planejamento de novos contratos. O tema já vinha pressionando o campo sul-mato-grossense em movimentos anteriores da moeda, como mostrou o episódio em que o dólar a R$ 5,19 travou negócios da soja em MS.
No Brasil, o Banco Central atualizou nesta quinta-feira suas projeções para a economia por meio do Relatório de Política Monetária, reduzindo a estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026 de 2,0% para 1,8%, com projeção de apenas 1,4% para 2027. A desaceleração da atividade é apontada por analistas como um dos motivos que abrem espaço para novos cortes na Selic, atualmente em 13,75% ao ano — um corte que reduziria ainda mais o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos e tende a pressionar o real para cima.
Eleição e saída de dólares do país aumentam a pressão sobre o câmbioAlém do cenário externo, o mercado financeiro segue de olho na disputa pela Presidência entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), tecnicamente empatados nas pesquisas mais recentes, com nova rodada do Datafolha prevista para a noite desta quinta-feira. A indefinição eleitoral tem sido citada como um fator de cautela para investidores estrangeiros, num momento em que o fluxo cambial do Brasil já opera no negativo: segundo o Banco Central, o país registrou saída líquida de US$ 7,078 bilhões em setembro até o dia 18.
Para conter a volatilidade, o Banco Central vendeu US$ 1 bilhão em dois leilões de linha simultâneos ao longo da manhã, injetando liquidez no mercado de câmbio. Às 17h08, o índice do dólar, que mede a moeda americana frente a uma cesta de seis divisas fortes, subia 0,14%, a 101,270 pontos — um sinal de que a pressão vem de fora do Brasil e deve continuar sendo monitorada de perto pelo setor exportador de MS nas próximas semanas.
Fontes: BANCO CENTRAL DO BRASIL; REUTERS