Um concurso nacional disputado em 1978, antes mesmo da criação oficial de Mato Grosso do Sul, guardava um mistério que só foi resolvido 48 anos depois: o que aconteceu com as composições que concorreram e perderam para o hino estadual que se tornou oficial. O Arquivo Público Estadual encontrou 92 hinos enviados de várias regiões do Brasil para o Concurso Nacional de Símbolos de Mato Grosso do Sul, criado para escolher bandeira, brasão e hino do estado recém-formado.
A descoberta nasceu de uma lacuna percebida durante a exposição Os Celeiros de Farturas, em 2024, quando a equipe do Arquivo notou que não havia registro dos trabalhos que disputaram o concurso. "Durante a exposição nos chamou a atenção a ausência da documentação de hinos concorrentes, bem como a não localização dos trabalhos concorrentes", afirma o coordenador do Arquivo Público Estadual, Douglas Alves da Silva. A partir daí, pesquisadores passaram a vasculhar acervos regionais até reunir o material que agora vira exposição.
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Dos 92 hinos recuperados, a maioria já tem autoria confirmada: apenas quatro a seis composições seguem sem nome de autor identificado. "Nós temos hinos que vieram de todas as regiões do Brasil, porque esse concurso foi um concurso nacional", explica Douglas. O acervo reúne letras, partituras e memoriais descritivos, embora nem todas as peças tenham chegado com a melodia completa, e nenhuma delas foi gravada em áudio.
Sete composições chegaram a ser enviadas à Funarte para avaliação técnica, mas nenhuma foi aprovada pela comissão. Diante disso, o hino oficial de Mato Grosso do Sul acabou sendo encomendado: a melodia ficou a cargo do maestro Radamés Gnattali, e a letra foi escrita pelos membros da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras Jorge Antônio Siufi e Otavio Gonçalves Gomes.
Segundo Douglas, a análise dos documentos recuperados ajuda a entender por que tantas composições ficaram fora da disputa. O edital original exigia que os participantes se identificassem por pseudônimo, mas alguns escreveram o próprio nome ou até endereço completo nos envelopes, o que pode ter motivado desclassificação. Outra hipótese é o atraso no envio: o prazo final era 15 de outubro daquele ano, e hinos recebidos depois dessa data também teriam sido descartados do concurso.
O material completo será aberto ao público a partir das 18 horas do dia 21 de outubro de 2026, na temporada expográfica Muito Além do Acorde Final, ensaios e versos do hino sul-mato-grossense. Durante o evento de abertura, também será exibido o documentário Raízes Em Canção, a história do Hino de Mato Grosso do Sul, dirigido por Gabriela Dias e Douglas Alves da Silva, com realização do Espaço Energia Energisa.
A equipe do Arquivo já trabalha na etapa seguinte: um catálogo impresso reunindo todos os 92 hinos, suas letras e partituras, programado para ser lançado em 2027, ano em que Mato Grosso do Sul completa 50 anos de criação. "Agora, nos 49 anos, a gente apresenta pela primeira vez esses índices para a sociedade, já fica disponível para que pesquisadores venham", diz Douglas.
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