Unicamp cria levedura que recupera 10% do milho perdido na produção de etanol

Tecnologia geneticamente modificada atua na temperatura da fermentação e pode elevar rendimento das usinas de MS sem aumentar o uso de grão

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Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram uma levedura geneticamente modificada capaz de recuperar parte do amido que hoje é simplesmente descartado durante a fermentação do milho — e os cientistas estimam que esse desperdício chega a 10% do amido total de cada tonelada processada. A tecnologia, anunciada neste domingo (6 de setembro de 2026), está sendo validada em escalas industriais após resultados promissores em testes de bancada e já foi licenciada para a Bionfood, empresa-filha da universidade.

Para as usinas de etanol de milho de Mato Grosso do Sul — estado que figura entre os principais polos do biocombustível no Centro-Oeste e que tem no milho uma de suas commodities centrais —, a inovação pode significar mais litros de etanol produzidos com o mesmo caminhão de grão, sem ampliar área plantada nem aumentar o custo da matéria-prima. O setor já vem transformando o mercado do cereal no estado, e ganhos de eficiência como esse chegam em momento oportuno, especialmente diante da queda de 20% na produção de milho prevista para esta safra em MS.

O gargalo que a nova levedura resolve

O problema começa na natureza do milho. Diferentemente da cana-de-açúcar, o grão tem como principal componente o amido — longas cadeias de moléculas de glicose que a levedura industrial comum não consegue consumir diretamente. Antes de qualquer fermentação, o amido precisa ser quebrado em fragmentos menores por duas enzimas em sequência: a alfa-amilase, que age em temperaturas superiores a 90°C, e a glucoamilase, que completa o trabalho já dentro do tanque de fermentação, a cerca de 30°C.

O nó está justamente nessa diferença de temperatura. A alfa-amilase convencional simplesmente não funciona a 30°C, então precisa ser aplicada numa etapa separada, anterior à fermentação. Quando o processo chega ao tanque, parte do amido já não está completamente disponível — e vai embora junto ao resíduo. "Foi um esforço grande de procurar, nos milhões de dados públicos de proteínas que existem, de todos os organismos sequenciados, uma alfa-amilase que atua em baixa temperatura. 99,9% das alfa-amilases só funcionam a 80 graus", explicou Marcelo Falsarella Carazzolle, um dos pesquisadores responsáveis pela tecnologia.

Bioinformática como ferramenta de garimpagem genética

A solução veio da análise computacional de enormes bancos de dados genômicos. A equipe do Laboratório de Genômica e BioEnergia do Instituto de Biologia da Unicamp, coordenada pelo professor Gonçalo Amarante Guimarães Pereira, vasculhou sequências de proteínas de organismos do mundo inteiro até identificar candidatas capazes de agir em temperatura mais baixa. Depois de selecionar as promissoras, os cientistas inseriram os genes correspondentes numa levedura industrial — e criaram uma linhagem que produz tanto a nova alfa-amilase quanto uma nova glucoamilase, atuando simultaneamente dentro do tanque de fermentação.

O resultado prático é duplo: além de aproveitar o amido antes perdido, a levedura modificada pode reduzir a quantidade de enzimas comerciais que as usinas precisam comprar e adicionar ao processo, cortando um custo recorrente da operação industrial. A estratégia de proteção intelectual e licenciamento foi conduzida pela Agência de Inovação Inova Unicamp, com interveniência da Funcamp, e a tecnologia já está formalmente nas mãos da Bionfood para desenvolvimento comercial.

Validação em escala e o que ainda falta para chegar às usinas

É importante notar que os resultados confirmados até agora vêm de testes de bancada — ambiente controlado de laboratório. A etapa atual é de validação em escalas maiores, o passo que antecede a adoção industrial. Não há prazo público definido para que a levedura esteja disponível comercialmente para as usinas. Ou seja: o potencial existe e foi comprovado em laboratório, mas as plantas industriais — inclusive as de MS — ainda dependem de que a validação confirme os números em condições reais de operação.

Para o setor sucroenergético sul-mato-grossense, que enfrenta nesta safra uma colheita de milho menor e mais lenta, a perspectiva de extrair mais etanol do mesmo volume de grão é, no mínimo, o tipo de notícia que se acompanha de perto. Se a escala confirmar os 10% de amido recuperado, o impacto no rendimento por tonelada pode reconfigurar a equação econômica das usinas sem depender de expansão de área ou de aumento de preço da matéria-prima.

Fontes: UNICAMP; CANAL RURAL