Os 23 sítios de Corumbá que reescrevem a história das trilhas de MS
Pesquisas arqueológicas no Pantanal revelam que caminhos usados por bandeirantes em Mato Grosso do Sul seguiram rotas indígenas millenares — entenda o que os vestígios mostram.
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Antes de qualquer trilha receber um nome europeu ou mórmon, o território que hoje forma Mato Grosso do Sul já era cruzado por rotas cuidadosamente conhecidas. Pesquisas arqueológicas identificaram 23 sítios arqueológicos associados à Tradição Tupiguarani no planalto residual do Urucum, na região de Corumbá, revelando que a paisagem pantaneira nunca foi um espaço vazio à espera dos colonizadores — ela tinha donos, nomes e caminhos muito antes das expedições coloniais.
O achado muda a forma de ler trilhas históricas como o chamado Caminho dos Mórmons, no interior sul-mato-grossense. Quando uma rota ganha um nome histórico recente, é tentador imaginar que sua história começa ali. A arqueologia mostra o contrário: o conhecimento sobre onde encontrar água, como atravessar elevações e quais passagens conectavam recursos naturais era um patrimônio construído por gerações indígenas — e foi esse patrimônio que orientou as expedições coloniais séculos depois.
Rios, serras e o mapa que os Guarani já tinhamPara povos como os Guarani, Kaiowá e Terena, que habitavam o território sul-mato-grossense, certos caminhos eram evidentes: um rio facilita a orientação, uma passagem entre elevações reduz o esforço, uma área com água e caça se torna ponto estratégico naturalmente. Esse conhecimento acumulado fazia parte da própria relação dessas comunidades com o território — não era intuição, era ciência do lugar.
Quando bandeirantes avançaram pelo interior no período colonial, esse saber passou a ter enorme valor estratégico. Estudos históricos documentam que indígenas participaram das expedições como guias e conhecedores dos sertões, ainda que esse processo também tenha sido marcado por conflitos, resistência e escravização. As rotas que hoje associamos às bandeiras não podem ser lidas separadamente das populações que já as percorriam há séculos.
Arqueologia como ferramenta para separar as camadas do tempoO artigo científico "Arqueologia e história indígena no Pantanal", publicado na revista Estudos Avançados, reúne parte das evidências que permitem comparar a ocupação indígena com a posterior expansão colonial em Mato Grosso do Sul. A combinação de sítios arqueológicos com documentos históricos é o que permite aos pesquisadores separar essas diferentes camadas de tempo gravadas em uma mesma paisagem.
Para o Pantanal e para cidades como Corumbá, esse olhar arqueológico tem implicações concretas: valorizar o conhecimento indígena como parte fundante da história regional muda tanto a narrativa do turismo histórico quanto os debates sobre patrimônio cultural e territorial. Uma trilha que parece recente pode guardar, no traçado, a memória de trajetos com milênios de uso — e esse é o dado que a arqueologia sul-mato-grossense está, aos poucos, colocando no mapa.
Fontes: ESTUDOS AVANÇADOS (USP); MIDIAMAX