Pigmentos de urucum e carvão viram murais em escola indígena de Campo Grande

Projeto financiado pelo Fundo Municipal de Cultura leva artistas e crianças da Aldeia Marçal de Souza a criar painéis inspirados nos ODS da ONU.

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Tintas feitas de urucum, açafrão, café e carvão estão colorindo os muros de cinco escolas municipais de Campo Grande em um circuito cultural que mistura arte, sustentabilidade e protagonismo infantil. O projeto "Ação Educativa – ODS nos Muros", financiado pelo Fundo Municipal de Investimentos Culturais (FMIC) por meio da Fundação Municipal de Cultura (Fundac), mobilizou artistas locais para pintar painéis inspirados nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, com uma condição incomum: as pinceladas das crianças entram diretamente nas obras finais.

A etapa mais recente ocorreu na Escola Municipal Indígena Sulivan Silvestre Oliveira, na Aldeia Urbana Marçal de Souza, zona sul de Campo Grande. A artista Kami Macena, da etnia Terena, conduziu o painel com foco em natureza e território — e manteve o mural propositalmente inacabado antes da oficina das crianças, para que as produções delas pudessem ser incorporadas à obra.

A metodologia que transforma desenho infantil em mural de rua

A dinâmica com os estudantes do Ensino Fundamental foi desenhada pela Fuá Produções, organizadora do projeto, depois que o formato original — voltado a bate-papos com o Ensino Médio — se mostrou distante da realidade das crianças menores. A solução foi a metodologia "Escuta da Criação", conduzida pela atriz e escritora Lígia Prieto: em sessões de quatro horas, ela estimula a imaginação dos alunos e pede que produzam histórias e imagens usando pigmentos extraídos de materiais da terra.

"A gente trabalha com as experiências, os desejos e os olhares dos alunos, transformando isso em histórias e criações. A partir daí, eles partem para pinturas com tintas naturais, feitas de urucum, açafrão, café e carvão. E as produções das crianças chegam até as artistas como inspiração para os murais", explica Lígia Prieto. A coordenadora Julia Basso reforça que o objetivo é que cada aluno se reconheça na obra final. "As pinceladas dos alunos estarão na obra das artistas, e isso faz com que haja identificação com os murais. Mesmo que de maneira mais sutil, que aconteça de forma mais potente", afirma.

Quando a arte faz alunos chorarem de se reconhecer

O impacto emocional do projeto já se fez sentir em outras unidades do circuito. A muralista Thalya Veron, que retratou a superação do bullying em seu painel, descreveu o momento em que revelou às estudantes a origem da obra. "Contei a elas que me inspirei nas histórias e criações da oficina da Lígia. Foi quando elas começaram a chorar, me abraçaram e disseram que eram elas. Isso mostra que a arte ocupa esse lugar de reconhecimento, atravessa pessoas e cria conexões", recorda a artista.

Os temas dos painéis acompanham os ODS escolhidos para cada escola: Vida Terrestre, Saúde e Bem-Estar, Trabalho Decente, Igualdade de Gênero, Educação de Qualidade e Vida na Água estão representados nas cinco regiões urbanas contempladas pelo circuito. A diversidade temática foi pensada para que cada comunidade escolar se enxergue no objetivo retratado na própria parede de entrada.

Campo Grande como laboratório de arte pública com recursos públicos

O projeto conta com organização da Fuá Produções, em parceria com a Mucha Tintas e Bernardo Bravo Produções. O financiamento via FMIC — mecanismo da Prefeitura de Campo Grande gerido pela Fundac com apoio da Secretaria Municipal de Educação (Semed) — posiciona a iniciativa como exemplo de como recursos do fundo municipal podem sair das salas de teatro e chegar aos muros de escolas em bairros periféricos e comunidades indígenas urbanas.

Para Kami Macena, trabalhar na escola da Aldeia Marçal de Souza carregou um peso particular. "O meu trabalho acontecerá em um fluxo diferente. Inicio a pintura antes das produções das crianças e o mural permanece aberto ao encontro com aquilo que elas vão produzir e trazer", disse a artista Terena, ressaltando que a abertura da obra para a contribuição das crianças é parte da linguagem, não um detalhe logístico. O resultado são murais que, ao contrário de intervenções artísticas convencionais, carregam a autoria coletiva de quem estuda — e vive — naqueles espaços todos os dias.

Fontes: PREFEITURA DE CAMPO GRANDE, FUNDAC