600 militares, 12 toneladas de drogas e um rio sem muros: a operação que guarda MS

A Jaguaretê-Oeste mobiliza centenas de soldados entre Corumbá e a fronteira seca com a Bolívia para barrar narcotráfico e contrabando que abastece facções do Brasil inteiro.

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Às margens do rio Paraguai e ao longo da BR-262 — a rodovia que liga Corumbá a Porto Quijarro, na Bolívia —, 600 militares do Exército brasileiro atuam de forma ininterrupta para interceptar drogas, armas e mercadorias contrabandeadas que cruzam a fronteira Oeste do país. A operação tem nome: Jaguaretê-Oeste, coordenada pelo Comando Militar do Oeste (CMO), com sede em Campo Grande. Somente em 2026, as ações já resultaram na apreensão de aproximadamente 12 toneladas de entorpecentes, causando um prejuízo estimado em R$ 66 milhões ao crime organizado.

A escala do desafio só se torna visível do alto. Sobrevoando o trajeto entre Campo Grande e Corumbá, a transição do Cerrado para o Pantanal revela um território de dimensões difíceis de fiscalizar por terra. A faixa de fronteira Oeste cobre uma área de 150 quilômetros a leste de toda a linha que marca o limite do Brasil na América do Sul — e boa parte desse espaço não tem muro, cerca ou qualquer barreira física separando os países. "Não há barreiras físicas, muros, grades que separam o Brasil da Bolívia. É só dar um passo que a tutela do indivíduo já não nos pertence mais, e não podemos fazer nada", explica o General de Divisão Marcelo Zanon.

Em Corumbá, R$ 2 milhões apreendidos desde junho

No coração do Pantanal sul-mato-grossense, a 18ª Brigada de Infantaria de Pantanal, sediada em Corumbá, concentra parte significativa dos esforços. Desde 1º de junho de 2026, a unidade confiscou o equivalente a R$ 2 milhões em drogas e produtos de descaminho — termo técnico para mercadorias importadas de forma ilegal, que chegam ao Brasil sem o pagamento de impostos e muitas vezes a preços que inviabilizam a concorrência com produtos nacionais. O general responsável pelas operações locais ressalta que a abordagem não mira um perfil específico de suspeito. "Buscamos fiscalizar o máximo possível. Não buscamos alguma coisa em específico, uma característica particular. Queremos ter a convicção de que todos os veículos que passam por aqui não estão levando nenhum tipo de substância proibida", afirmou o General de Brigada Rafael Novaes.

A operação é propositalmente imprevisível. Fixar postos sempre nos mesmos pontos daria ao crime organizado a chance de mapear rotas alternativas. Por isso, os militares variam constantemente os locais e métodos de abordagem. "Somos o mais imprevisível possível em relação às posições de abordagem", reforçou o General Novaes. Além da Jaguaretê-Oeste, o CMO coordena ainda as operações Ágata-Carcará e Ágata-Pantanal, voltadas à cooperação entre agências para reforçar o controle da faixa pantaneira.

O rio que não tem dono — e os barcos blindados que o patrulham

O rio Paraguai representa um capítulo à parte nessa disputa. Por ser a única saída ao mar de Bolívia e Paraguai para fins comerciais, a hidrovia é protegida por um acordo internacional firmado em 1856, que regulamenta a livre navegação — e que, ao longo dos anos, abriu caminho para o escoamento de cargas ilegais em embarcações de carga e pesca. Para responder a essa ameaça, o Exército utiliza o Ferryboat, embarcação blindada, de alta velocidade, capaz de transportar até 30 militares armados e equipada com dispositivos de combate antiaéreo. Botes menores também entram em ação conforme o nível de ameaça avaliado antes de cada interceptação.

Na fronteira seca, o principal ponto de controle é o posto fiscal Lampião Aceso, na BR-262, onde todo veículo que entra ou sai do Brasil em direção à Bolívia precisa passar pela fiscalização. O trabalho envolve, além do Exército, a Marinha, as Polícias Civil, Militar, Rodoviária Federal e Federal, a Receita Federal e o Ministério da Agricultura e Pecuária, com troca constante de informações entre agentes nacionais e internacionais para identificar alvos e traçar estratégias.

O que passa pela fronteira de MS chega ao Brasil inteiro

Os efeitos do que atravessa — ou não atravessa — essa fronteira não ficam em Corumbá. Armas sem registro e drogas produzidas em escala industrial nos países vizinhos alimentam facções criminosas de norte a sul do país. Produtos de contrabando vendidos a preços artificialmente baixos corroem setores produtivos brasileiros. Para Mato Grosso do Sul, estado que divide mais de 1.100 quilômetros de fronteira com Bolívia e Paraguai, essa dinâmica é cotidiana: a rota do tráfico e do descaminho passa literalmente pelas cidades do estado antes de se distribuir pelo restante do território nacional.

A Jaguaretê-Oeste abrange ainda o Paraná e Santa Catarina, mas é em solo sul-mato-grossense — com Corumbá como epicentro — que a operação encontra sua expressão mais intensa, onde bioma, hidrovia e rodovia internacional convergem em um dos pontos mais vulneráveis e estratégicos do mapa da segurança brasileira.

Fontes: COMANDO MILITAR DO OESTE (CMO), EXÉRCITO BRASILEIRO