Dólar a R$ 5,20 pressiona insumos e frete do agro em MS

Alta de 0,62% na sexta-feira após discurso do Fed reacende alerta para produtores de soja e pecuaristas sul-mato-grossenses; entenda o que muda.

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O dólar encerrou a sessão desta sexta-feira (28) cotado a R$ 5,1961, com valorização de 0,62% no dia e acúmulo de 1,06% na semana, depois que o presidente do Federal Reserve (Fed), Kevin Warsh, sinalizou em Jackson Hole que o banco central americano pode elevar os juros caso a inflação dos Estados Unidos não recue com velocidade suficiente em direção à meta de 2%. O movimento jogou o dólar para cima contra quase todas as moedas do mundo — e o real não ficou de fora.

Para Mato Grosso do Sul, que embarcou mais de R$ 28 bilhões em exportações no último exercício completo — com soja, carne bovina e celulose como carros-chefe —, a alta da moeda americana tem duas faces que raramente andam juntas: o exportador recebe mais reais por cada dólar de venda, mas o produtor paga mais caro pelos insumos cotados em moeda estrangeira, como fertilizantes e defensivos, e o frete até os portos de Santos e Paranaguá também fica mais oneroso quando o diesel acompanha a pressão cambial.

O que Warsh disse e por que o mercado reagiu tão rápido

Em seu primeiro discurso no simpósio de Jackson Hole como chair do Fed, Warsh foi direto ao ponto. "Devemos estar confiantes de que a inflação subjacente está caminhando em direção à nossa meta, de forma clara e com velocidade suficiente. Caso contrário, temos trabalho a fazer. Esse é o nosso trabalho, nosso mandato e nossa responsabilidade", declarou. A fala foi interpretada pelos mercados como um sinal de postura mais rígida — o que os economistas chamam de tom hawkish — e derrubou as apostas em cortes de juros nos EUA para setembro, levantando a hipótese de alta.

Com isso, os rendimentos dos títulos do Tesouro americano (Treasuries) subiram e o índice do dólar, que mede o desempenho da moeda frente a uma cesta de seis divisas globais, avançou 0,57%, aos 99,668 pontos. O real teve comportamento parecido com o de pares como o peso colombiano, o rand sul-africano e o peso chileno. "A moeda americana se valoriza não só contra o real, mas praticamente em relação a todas as divisas do mundo. Isso porque se o Fed sobe juros e tem esse tom mais hawkish, a tendência é o fluxo de capital se concentrar na economia americana, valorizando o dólar", explicou Josias Bento, especialista em investimentos e sócio da GT Capital.

Caged fraco amplia aposta em corte da Selic — e complica o real

No mesmo dia, um dado doméstico piorou a equação para o real. Números do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) — que vazaram horas antes da divulgação oficial, prevista para as 14h30 — apontaram a criação de apenas 58.568 vagas formais em julho, bem abaixo das 112.000 esperadas pelos economistas. A surpresa negativa reforçou as apostas de que o Banco Central brasileiro cortará a Selic em setembro, com possibilidade de novo corte em novembro.

O problema é que esse cenário estreita o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos — hoje a Selic está em 14% ao ano, contra uma faixa americana de 3,50% a 3,75%. Se o Fed subir e o Banco Central brasileiro cortar, o gap encolhe, reduzindo o apelo do real para investidores estrangeiros e pressionando ainda mais o câmbio. No acumulado do ano, o dólar ainda cai 5,34% frente ao real, mas a tendência das últimas semanas acende um sinal de atenção para quem planeja compras de insumos e contratos de exportação.

O que esperar nos próximos meses para produtores de MS

Para o agronegócio sul-mato-grossense, o cenário que se desenha exige atenção redobrada no planejamento financeiro da safra 2025/26. Em Dourados, Maracaju e Sete Quedas — polos da produção de soja e milho no estado — produtores que já fecharam contratos de venda em dólar com antecedência tendem a se beneficiar de um câmbio mais alto no momento da liquidação. Já os que deixaram a contratação de fertilizantes para o segundo semestre podem se deparar com cotações mais salgadas, especialmente se o dólar sustentar o patamar acima de R$ 5,20.

Em Três Lagoas, maior polo de celulose do mundo, as exportadoras também monitoram de perto o movimento do Fed: receitas em dólar ficam mais robustas em reais, mas o custo de equipamentos importados e de contratos atrelados à moeda americana sobe na mesma proporção. O cenário internacional ainda carrega incertezas — a próxima reunião do Fed, em setembro, será o termômetro para saber se Warsh passa das palavras à ação.

Fontes: REUTERS, FEDERAL RESERVE, MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO