Quatro estudantes do ensino médio de um assentamento rural em Sidrolândia construíram, em duas semanas, um robô capaz de tocar "Trem do Pantanal" — o clássico imortalizado por Almir Sater — em um teclado real, sem nenhuma programação no instrumento. O projeto da equipe PantaBox, da Escola Estadual Paulo Eduardo de Souza Firmo, no Assentamento Eldorado 2, chamou a atenção de competidores e avaliadores durante a etapa regional da Olimpíada Brasileira de Robótica (OBR), realizada em Campo Grande.
A participação só foi possível depois que a escola recebeu kits de tecnologia e capacitação da Secretaria de Estado de Educação (SED) no ano anterior. A partir desse suporte, os alunos José Henrique, Lucas Guilherme, Diogo Maciel e Nicolas Wendell decidiram homenagear a identidade cultural sul-mato-grossense — e escolheram a música que talvez seja o símbolo mais reconhecível do Pantanal para fazer isso.
O processo de transformar uma canção regional em comandos de máquina exigiu que a equipe convertesse cada nota musical em instruções digitais enviadas a dois motores sincronizados. José Henrique ficou responsável pela parte musical e pelo acompanhamento no violão; Lucas e Diogo escreveram a programação; e Nicolas cuidou do design do protótipo. "Transformamos a melodia da música em códigos para mandar o comando para os motores executarem as notas mais próximo do tempo original. Realizamos precisamente cada movimento que o robô iria fazer no teclado — o teclado em si não teve nenhuma programação", explicou José Henrique.
O maior obstáculo técnico foi o tempo. Fazer dois motores acertarem o ritmo de uma música conhecida é diferente de apenas reproduzir sons: qualquer milissegundo fora do compasso entrega o erro ao ouvinte. "A parte de programar se destaca na dificuldade, pois o robô tinha que executar as notas mais próximas do tempo original da música", relatou Lucas Guilherme. Depois de ajustes sucessivos ao longo das duas semanas, a equipe viu o instrumento responder como planejado.
Quando a PantaBox apresentou o projeto em Campo Grande, o contexto chamava atenção por si só: uma equipe vinda de um assentamento de reforma agrária, a mais de 60 quilômetros da capital, competindo ao lado de escolas urbanas com estrutura consolidada. O resultado foi além do esperado pelos próprios estudantes. "Não esperávamos uma repercussão tão grande. Na etapa regional havia vários projetos bem elaborados, com várias execuções, e se destacar no meio de tantos outros foi gratificante para nós. Recebemos muitos elogios do pessoal do evento e dos outros grupos", contou Diogo Maciel.
A conquista tem um significado que vai além da competição. Para a comunidade do Eldorado 2, é a demonstração prática de que o acesso à ciência e à tecnologia na zona rural produz resultados concretos — e que a cultura do Pantanal pode ser, ao mesmo tempo, ponto de partida e argumento de chegada em uma olimpíada nacional.
Mato Grosso do Sul tem parte considerável de sua população estudantil em escolas do campo, espalhadas por assentamentos, fazendas e comunidades distantes dos centros urbanos. A trajetória da equipe de Sidrolândia evidencia o potencial desse segmento quando recebe equipamentos adequados e orientação pedagógica — e serve de referência para outras unidades do estado que aguardam os mesmos kits tecnológicos da SED.
Para os quatro estudantes, o violão, o berrante e o robô que tocou "Trem do Pantanal" ficam como símbolo de que fronteira entre roça e tecnologia é, sobretudo, uma questão de oportunidade. A equipe planeja seguir na olimpíada pelas próximas etapas da competição nacional.
Fontes: SECRETARIA DE ESTADO DE EDUCAÇÃO DE MS, OLIMPÍADA BRASILEIRA DE ROBÓTICA