Uma escola da rede municipal de Campo Grande se tornou, nesta semana, ponto de encontro entre o conhecimento científico e os saberes ancestrais do povo Terena: a Escola Municipal Sulivan Silvestre Oliveira – Tumune Kalivono recebeu professores, alunos e membros do coletivo indígena Caianas, de Miranda, para uma formação voltada à educação etnoambiental e às mudanças climáticas.
A iniciativa chama atenção pelo ângulo que adota: em vez de levar especialistas do meio acadêmico ou gestores públicos para falar sobre sustentabilidade, a escola abriu espaço para que famílias da Terra Indígena Cachoeirinha compartilhassem práticas que mantêm há gerações — manejo da terra, produção de mudas e uma relação com o ambiente que precede qualquer política climática.
O coletivo Caianas — cujo nome completo é Coletivo Ambientalista Indígena de Ação para Natureza, Agroecologia e Sustentabilidade — é formado por famílias da etnia Terena e tem sede em Miranda, a cerca de 200 quilômetros de Campo Grande. O grupo centra seu trabalho na valorização dos conhecimentos tradicionais como ferramenta concreta de sustentabilidade, não como símbolo cultural.
Para o coordenador do coletivo, Ederval Antonio, os verdadeiros detentores desse saber são os mais velhos. "São eles os detentores desses conhecimentos e, sem isso, a gente não consegue caminhar. Nossos anciões e nossas anciãs são os principais orientadores da juventude e das crianças", declarou Ederval durante a formação. A afirmação resume a lógica do grupo: a transmissão oral entre gerações não é um ritual — é o método.
A entrada do Caianas no ambiente escolar não foi espontânea: desde 2024, o coletivo intensificou o trabalho pedagógico direto com crianças e adolescentes, levando para dentro das escolas práticas de etnoagroecologia, produção de mudas e técnicas de cuidado com a terra aprendidas na Terra Indígena Cachoeirinha. O contato com as novas gerações foi exatamente o que motivou essa aproximação.
Na formação desta semana, alunos dos 4º e 5º anos participaram de dinâmicas de educação ambiental em parceria com a Patrulha Ambiental, enquanto professores e a comunidade debatiam o tema em uma roda de conversa com os integrantes do coletivo. A combinação de atividade prática com debate adulto foi deliberada: a escola quis que o conteúdo chegasse em diferentes camadas ao mesmo tempo.
Para o corpo docente da escola, a experiência abre um caminho que os materiais didáticos convencionais raramente percorrem: ensinar sustentabilidade a partir de práticas que fazem sentido no cotidiano dos próprios estudantes, muitos deles com vínculos diretos ou indiretos com comunidades indígenas de Mato Grosso do Sul.
O estado concentra uma das maiores populações indígenas do Brasil — mais de 70 mil pessoas, segundo estimativas do IBGE, distribuídas em dezenas de terras demarcadas. Trazer esse conhecimento para dentro da sala de aula não é apenas uma escolha pedagógica: é um reconhecimento de que parte da resposta à crise climática já existe e está sendo praticada a poucos quilômetros de Campo Grande, nas margens do Pantanal.
A tendência de integrar a educação indígena aos currículos regulares ganhou força após a Lei nº 11.645/2008, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura indígena nas escolas públicas e privadas. Mas o que aconteceu na Tumune Kalivono vai além do cumprimento legal: foi um exercício de escuta ativa, onde a escola foi ao território — mesmo que simbolicamente — antes de o território vir até ela.
Fontes: PREFEITURA MUNICIPAL DE CAMPO GRANDE