O Brasil está prestes a se tornar pioneiro mundial com a construção da primeira fábrica dedicada ao processamento em larga escala de pele de tilápia para uso médico.
A unidade será instalada em Jaguaribara, no interior do Ceará, e receberá um investimento inicial de R$ 52 milhões. Desenvolvida a partir de pesquisas da Universidade Federal do Ceará (UFC), a tecnologia transforma um resíduo normalmente descartado pela indústria pesqueira em um curativo biológico eficaz no tratamento de queimaduras de segundo e terceiro graus, feridas de difícil cicatrização e outras aplicações clínicas.
A tecnologia nasceu em 2015 no Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos da UFC. A pele da tilápia, rica em colágeno tipo I, atua como cobertura temporária oclusiva: adere à lesão, reduz a perda de fluidos, forma barreira contra infecções, alivia a dor e acelera a cicatrização.
Estudos mostram redução de 10% a 15% no tempo de recuperação e diminuição significativa no uso de analgésicos opioides e nas trocas de curativos, que no método convencional costumam ser diárias e dolorosas. O tratamento com o biomaterial pode custar cerca de 50% a 52% menos que as opções tradicionais, o que abre caminho para ampliação no Sistema Único de Saúde (SUS).
Atualmente, o laboratório da UFC processa, em média, até 600 peles por mês, destinadas a pesquisas e atendimentos pontuais. Com a fábrica, a capacidade inicial será de cerca de 4,3 mil unidades por dia no primeiro ano de operação comercial, podendo chegar a 12 mil diárias em etapa posterior. A construção deve começar em outubro de 2026; o cronograma prevê 15 a 18 meses para obras, instalação de equipamentos e validação de lotes-piloto, com operação plena estimada para janeiro de 2028 (ou meados de 2027, conforme o avanço do convênio estadual). Antes da comercialização, o produto ainda precisará de registro na Anvisa.
O processo de conservação inovador utiliza a liofilização (desidratação a frio), que permite armazenar o curativo por até três anos em temperatura ambiente, sem refrigeração. Antes da aplicação, basta reidratá-lo com soro fisiológico. Essa característica facilita o transporte e a distribuição, inclusive para exportação — a expectativa é que metade da produção seja destinada a mercados das Américas, Europa e Ásia. A matéria-prima virá principalmente da piscicultura local, especialmente do Açude Castanhão, transformando descarte em produto de alto valor agregado e gerando entre 200 e 300 empregos diretos na região.
O projeto é conduzido pelo Consórcio Biotec (por meio da Inova Medical), que obteve o licenciamento da patente da UFC. A universidade detém 50% da propriedade intelectual, e os inventores receberão royalties. Além das queimaduras, a pele de tilápia já foi aplicada com sucesso em úlceras, reconstrução vaginal, redesignação sexual e medicina veterinária, consolidando a inovação cearense como referência internacional.Se os prazos forem cumpridos, a fábrica de Jaguaribara não apenas colocará o Brasil na liderança global dessa biotecnologia, mas também fortalecerá a economia do interior do Ceará, unindo ciência, sustentabilidade e saúde pública em uma verdadeira revolução no tratamento de lesões cutâneas.