BNDES libera R$ 428 mi para armazenagem e MS entra na disputa por capacidade

Investimento federal em cooperativa paranaense acende alerta para produtores sul-mato-grossenses que enfrentam gargalo logístico na hora de escoar a safra.

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O BNDES aprovou R$ 428 milhões para ampliar a capacidade de armazenagem da Coasul, cooperativa agrícola sediada no sudoeste do Paraná, em uma das maiores operações de financiamento à infraestrutura de silos e armazéns concedidas pelo banco nos últimos anos. A decisão, anunciada em julho de 2025, reforça a estratégia federal de reduzir as perdas pós-colheita e desafogar os principais corredores logísticos do agronegócio brasileiro — mas também expõe um contraste que preocupa quem produz do outro lado da divisa: Mato Grosso do Sul ainda patina na corrida por capacidade estática suficiente para guardar o que colhe.

O Brasil colhe cada vez mais e armazena de forma cada vez mais desigual entre os estados. Enquanto Paraná e Mato Grosso historicamente concentram investimentos privados e públicos em armazenagem, o MS convive com um déficit estrutural que obriga produtores de regiões como Dourados, Maracaju e Chapadão do Sul a vender no pico da safra, quando os preços estão no chão, por falta de onde guardar o grão.

O que a Coasul vai fazer com o dinheiro

Com o aporte do BNDES, a Coasul prevê construir e modernizar unidades armazenadoras em municípios do sudoeste paranaense, aumentando sua capacidade estática em dezenas de milhares de toneladas. A cooperativa atende agricultores de soja, milho e trigo — culturas que também dominam o calendário agrícola sul-mato-grossense — e o investimento deve permitir que ela receba mais grãos diretamente do campo, evitando filas e perdas no período crítico de março a maio, quando as colheitadeiras correm em todo o Centro-Sul do país ao mesmo tempo.

O financiamento segue linha específica do banco para modernização da infraestrutura logística rural, com taxas subsidiadas e prazo estendido de pagamento. O BNDES vem priorizando esse segmento desde 2023, quando o governo federal identificou que o Brasil perde entre 10% e 15% da produção de grãos por problemas de pós-colheita, incluindo armazenagem inadequada.

Por que isso importa para Dourados, Maracaju e o cone sul de MS

Mato Grosso do Sul produziu mais de 15 milhões de toneladas de grãos na safra 2023/24, segundo dados da Conab, mas a capacidade estática instalada no estado ainda fica muito abaixo desse volume. O resultado prático é que o produtor sul-mato-grossense tem menos poder de barganha: sem armazém próprio ou acesso fácil a cooperativa próxima, vende quando o mercado manda, não quando o mercado paga melhor.

Cooperativas como Copasul, Coopavel e Unigral têm avançado no interior do estado, mas os recursos disponíveis para expansão não chegam na mesma velocidade que a lavoura cresce. O investimento do BNDES na Coasul paranaense mostra que o modelo existe e funciona — e levanta a pergunta sobre quando cooperativas de MS conseguirão acesso similar a linhas de crédito nessa escala. Entidades como a Famasul e o Sindicato Rural de Dourados já sinalizaram, em audiências na Assembleia Legislativa do estado em 2024, que o gargalo de armazenagem é prioridade para a próxima fase de expansão agrícola do MS.

Janela aberta para MS pleitear financiamento semelhante

A aprovação do crédito para a Coasul não é um episódio isolado: o BNDES mantém linhas abertas para o setor de armazenagem em todo o Brasil, e cooperativas ou empresas de MS podem protocolizar projetos. O banco opera com o BNDES Agro e com o Fundo Clima para iniciativas que incluam eficiência energética nos armazéns — o que pode interessar a projetos que combinem silo com painel solar, tendência crescente no agro sul-mato-grossense.

Para o produtor que acompanha o noticiário do setor, a mensagem é direta: o dinheiro existe, os instrumentos existem, e o Paraná provou que uma cooperativa organizada consegue captar em grande escala. O desafio do MS é chegar a essa mesa com projetos maduros, engenharia detalhada e governança cooperativa sólida o suficiente para convencer o banco. Quem não estiver preparado quando a próxima rodada de aprovações abrir vai ver o vizinho avançar mais uma vez.

Fontes: BNDES, CONAB