UFMS testa biodiesel com sebo bovino e soja para saber até onde dá para misturar com segurança

Pesquisa pós-doutoral na Universidade Federal de MS analisa misturas de até 30% de biodiesel e os riscos de entupimento, corrosão e degradação dos motores.

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Uma pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) está conduzindo um estudo que pode redefinir os critérios de segurança para o uso de biodiesel no Brasil. Fabiana Pereira de Sousa, em estágio pós-doutoral no Instituto de Química da universidade, testa misturas que chegam a 30% de biodiesel no diesel mineral — o dobro do que circula hoje nos postos de combustíveis — e investiga como a matéria-prima e o tempo de armazenamento afetam a qualidade do combustível.

O momento não poderia ser mais oportuno. O Brasil já opera com B1515% de biodiesel misturado ao diesel mineral — e o Ministério de Minas e Energia publicou, em maio deste ano, um cronograma para testar concentrações de até 25%, em duas fases: primeiro o B20, depois o B25, usando diferentes tipos de motores, inclusive equipamentos com mais de três décadas de uso. A ciência produzida em Campo Grande pode, portanto, embasar decisões que afetam desde o caminhoneiro de Três Lagoas até o produtor rural de Dourados.

Por que mais biodiesel pode virar um problema dentro do tanque

O ponto mais sensível da pesquisa não está na bomba — está no que acontece depois que o combustível sai dela. Fabiana explica que, diferentemente do diesel mineral, o biodiesel tem oxigênio em sua composição e absorve água com muito mais facilidade. Durante o transporte ou o armazenamento em tanques, o contato com a umidade do ar pode gerar o acúmulo de uma fase aquosa dentro do combustível. E é aí que a cadeia de danos começa.

Com água parada, bactérias e fungos encontram ambiente propício para se multiplicar e formar biofilmes — uma espécie de lodo que obstrui filtros e tubulações. Além disso, a umidade acelera a oxidação do combustível, provoca corrosão nas superfícies metálicas e gera borras e sedimentos que comprometem o sistema de injeção. O resultado prático: motor com desempenho reduzido, manutenção mais cara e, em casos extremos, danos irreversíveis ao equipamento. "O objetivo deste estudo não é impedir o aumento do uso desse biocombustível, mas fornecer informações científicas para que esse avanço ocorra com segurança, preservando os benefícios ambientais e energéticos do biodiesel e, ao mesmo tempo, garantindo o bom funcionamento e a durabilidade dos motores", afirma Fabiana Pereira de Sousa, pesquisadora da UFMS.

Soja, sebo bovino e algodão: a origem do biodiesel também faz diferença

A pesquisa vai além da concentração. Fabiana também analisa como a matéria-prima usada na produção do biocombustível influencia seu comportamento. O biodiesel produzido a partir de óleo de soja, de sebo bovino ou de algodão apresenta composições químicas distintas, o que pode resultar em diferentes taxas de degradação, maior ou menor resistência à oxidação e reações diferentes ao envelhecimento.

O estudo acompanha as principais propriedades físico-químicas de cada tipo ao longo do tempo, monitora como o armazenamento altera essas características e tenta identificar quais fatores pesam mais na formação dos resíduos que comprometem os motores. Para MS, onde o agronegócio é o principal motor econômico e onde o sebo bovino — subproduto da cadeia de carne que o estado lidera nacionalmente — é uma das matérias-primas do biodiesel, esse recorte tem relevância direta. Dourados, Naviraí e toda a faixa produtora do sul do estado dependem de frotas pesadas que rodarão com as novas misturas.

Financiamento público e o peso do resultado para o agro sul-mato-grossense

O projeto recebe financiamento da Fundect (Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul), com bolsa de pesquisa do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). A escolha da UFMS como instituição executora não é acidental: Mato Grosso do Sul é um dos maiores produtores de soja e carne bovina do país, dois dos principais insumos do biodiesel nacional, e tem interesse estratégico em garantir que o avanço das misturas não represente passivo técnico para a frota agrícola e de transporte.

Se os dados da pesquisa confirmarem condições seguras para o B20 ou o B25 em diferentes tipos de motores e matérias-primas, o Brasil terá base científica sólida para avançar no cronograma federal sem os riscos que hoje cercam as decisões sobre a mistura. Para o produtor que abastece a colheitadeira, o transportador que carrega a soja até o porto de Santos e o motorista que circula pelas rodovias de MS, essa diferença pode se traduzir em menos quebras, menor custo de manutenção e combustível mais eficiente — desde que a transição seja feita com os critérios que a ciência feita em Campo Grande está ajudando a construir.

Fontes: UFMS, FUNDECT, CNPq, MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA