Autorizada a devolução do canhão "El Cristiano" ao Paraguai após impasse diplomático
Peça histórica da Guerra da Tríplice Aliança está no Brasil desde 1870 e retorno ainda depende de trâmites diplomáticos e patrimoniais
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva autorizou a devolução do canhão histórico "El Cristiano" ao Paraguai, atendendo a uma reivindicação que o país vizinho mantém há mais de 15 anos. A decisão foi tomada em reunião realizada no fim de julho entre o presidente, os comandantes das Forças Armadas e o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro.
Considerado um dos principais símbolos da resistência paraguaia durante a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), o artefato encontra-se atualmente sob guarda do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. O canhão pesa cerca de 12 toneladas e foi produzido a partir do derretimento de sinos de igrejas paraguaias durante o conflito.
A decisão ocorre em meio a um recente desgaste diplomático entre Brasil e Paraguai. Em julho, durante um evento em São Paulo, Lula afirmou que "um belo dia o Paraguai decidiu invadir o Brasil" ao comentar a guerra do século XIX. A declaração foi contestada pelo governo e pelo Congresso paraguaios, que classificaram a fala como uma interpretação inadequada dos acontecimentos históricos.
Após a repercussão, o vice-presidente paraguaio, Pedro Alliana, e o chanceler Rubén Ramírez Lezcano entregaram ao embaixador brasileiro em Assunção uma nota formal solicitando a devolução do "El Cristiano", além de outros troféus de guerra e documentos históricos relacionados ao conflito.
Apesar da autorização política já ter sido concedida pelo governo brasileiro, a devolução ainda não está concluída. O processo dependerá agora de negociações conduzidas pelo Itamaraty, responsável por definir as condições formais da transferência. Além disso, há um obstáculo jurídico relevante: o "El Cristiano" é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o que exige procedimentos específicos para viabilizar sua retirada do patrimônio protegido brasileiro.
O canhão está no Brasil desde 1870, após a derrota paraguaia na Guerra da Tríplice Aliança, conflito que envolveu Brasil, Argentina e Uruguai contra o Paraguai e é considerado o maior enfrentamento internacional da história da América do Sul.
No Paraguai, a notícia foi recebida com cautela. Veículos de imprensa do país informaram que a chancelaria paraguaia ainda aguarda uma comunicação oficial do governo brasileiro confirmando os próximos passos para a repatriação da peça histórica.
Caso seja concretizada, a devolução será um dos mais significativos gestos diplomáticos entre os dois países relacionados à memória da Guerra da Tríplice Aliança e poderá representar um novo capítulo nas relações bilaterais entre Brasília e Assunção.