Biofungicida nacional usa 40 metabólitos para proteger soja contra doenças que destroem até 40% da colheita

Primeiro defensivo biológico 100% à base de metabólitos desenvolvido no Brasil é registrado para combater antracnose e mancha-alvo na soja, doenças que afetam lavouras em MS.

Por

Divulgação

A empresa Bioma acaba de obter o registro comercial do primeiro biofungicida brasileiro formulado exclusivamente com metabólitos — moléculas isoladas de microrganismos, sem fungos ou bactérias vivos na composição. A tecnologia, batizada de Metabolic Protection, chegou ao mercado após cinco anos de pesquisas e representa uma virada significativa num segmento até então dominado por produtos importados. Para os produtores de soja de Mato Grosso do Sul — um dos maiores estados produtores do país —, a novidade pode mudar o modo de enfrentar duas das doenças foliares mais destrutivas da cultura.

O novo biofungicida foi registrado especificamente para o manejo da antracnose, causada pelo fungo Colletotrichum truncatum, e da mancha-alvo, provocada por Corynespora cassiicola. Ambas figuram entre as ameaças mais sérias à produtividade da soja, capazes de destruir até 40% da colheita em variedades mais suscetíveis quando as condições climáticas favorecem a proliferação dos patógenos — cenário frequente nas regiões produtoras do Centro-Oeste.

A tecnologia que o Brasil ainda não tinha

A concepção científica do produto foi liderada pela Orygen, empresa de Pesquisa & Desenvolvimento do Grupo Cogny, apresentado como o maior ecossistema de bioinsumos do mundo. A Bioma ficou responsável pela estratégia de registro e pela futura comercialização, prevista para começar em breve, sem data oficial confirmada até o momento.

O diferencial da Metabolic Protection está numa metodologia proprietária que estimula a expressão de genes específicos nos microrganismos, induzindo a produção de compostos de interesse agronômico em larga escala. O resultado é um blend com cerca de 40 metabólitos distintos: mais de 20 com ação direta sobre os fungos patogênicos e outros 17 que ativam os mecanismos naturais de defesa da própria planta. "A combinação de diferentes moléculas e mecanismos de ação responde a um dos principais desafios do manejo fitossanitário da soja, que é a perda gradual de eficácia de parte dos fungicidas químicos em razão da resistência desenvolvida pelos patógenos após aplicações sucessivas de produtos com mecanismos semelhantes", afirmou Artur Soares, diretor de Pesquisa da Orygen.

Mercado bilionário e dependência de importados

O contexto em que esse produto surge é de pressão crescente sobre os produtores. Os fungicidas movimentaram cerca de US$ 6,5 bilhões no Brasil em 2025, o equivalente a 32% de todo o mercado de defensivos agrícolas, que totalizou US$ 20,2 bilhões, segundo levantamento da Kynetec Brasil divulgado pelo Sindiveg. E entre janeiro e maio de 2026, as importações brasileiras de defensivos químicos já somavam US$ 4,28 bilhões — número que evidencia o quanto a agricultura nacional ainda depende do exterior para proteger suas lavouras.

O segmento dos biofungicidas, no entanto, foi o que mais cresceu em valor entre os biológicos em 2025: o faturamento avançou 41% e chegou a R$ 1,4 bilhão, com a área tratada alcançando 26 milhões de hectares, expansão de 37% em relação ao ano anterior, segundo dados do CropData, plataforma da CropLife Brasil. É exatamente nessa janela de expansão que o produto nacional estreia.

O que muda para a soja sul-mato-grossense

Mato Grosso do Sul está entre os estados onde antracnose e mancha-alvo causam mais estragos, especialmente em safras com alta umidade durante o desenvolvimento das plantas. A disponibilidade de um biofungicida nacional — potencialmente mais acessível por não depender de câmbio e de cadeias logísticas internacionais — é relevante num momento em que a guerra comercial global e a instabilidade geopolítica elevam o custo dos insumos importados.

Para produtores de regiões como Dourados, Maracaju e Chapadão do Sul, onde a soja responde por grande parte da renda agrícola, ter mais uma ferramenta de manejo contra a resistência fúngica pode significar a diferença entre uma safra plena e perdas expressivas. A expectativa do setor é que a Bioma anuncie o calendário de comercialização ainda nesta temporada pré-plantio, abrindo espaço para que os produtores avaliem a inclusão da Metabolic Protection nos programas de manejo integrado de doenças da próxima safra.

Fontes: SINDIVEG, CROPLIFE BRASIL, BIOMA