Usinas trocam açúcar por etanol e estoque de biocombustível sobe 28% no centro-sul
Queda de 8,4% na moagem de cana em julho reflete chuvas e estratégia das usinas, que preferiram etanol ao açúcar menos rentável — movimento que afeta MS diretamente.
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A segunda quinzena de julho registrou uma retração significativa na moagem de cana-de-açúcar no centro-sul do Brasil: 46,08 milhões de toneladas processadas, queda de 8,4% em relação ao mesmo período de 2025, segundo dados do Ministério da Agricultura divulgados na semana passada. O número já antecipa o que a Unica — associação que representa as usinas da região — ainda não publicou sobre julho, e acende um alerta para o setor sucroalcooleiro de Mato Grosso do Sul, um dos maiores produtores de cana do país.
A queda na moagem, por si só, não conta a história inteira. O dado mais revelador está na decisão estratégica das usinas: com os preços do açúcar menos competitivos no mercado internacional, a maior parte das plantas optou por direcionar a matéria-prima para a produção de etanol. O resultado foi uma redução de 17,6% na fabricação de açúcar — que recuou para 3 milhões de toneladas na quinzena — enquanto o etanol total avançou 2,8%, chegando a 2,39 bilhões de litros.
Etanol de milho ganha força e muda o equilíbrio da safraAlém da migração do açúcar para o etanol de cana, outro fator pesou na alta do biocombustível: o crescimento da produção a partir do milho. As usinas flex — que combinam cana e milho no processamento — seguem em expansão no centro-sul, especialmente em estados como Mato Grosso do Sul, onde o milho safrinha é abundante e barato entre junho e agosto. Essa dinâmica permitiu que o volume de etanol crescesse mesmo com menos cana sendo processada.
No acumulado da safra 2026/27 até o fim de julho, a moagem somou 313,21 milhões de toneladas, alta de 2,1% frente ao mesmo ponto da temporada anterior, de acordo com o Sistema de Acompanhamento da Produção Canavieira (SAPCANA). Ainda assim, a produção de açúcar no acumulado caiu 12,4%, para 16,92 milhões de toneladas — sinal de que a preferência pelo etanol é uma tendência consolidada nesta safra, não um evento isolado de julho.
Estoque recorde de etanol pressiona preços — e chega à bomba em MSO efeito mais imediato para o consumidor de Mato Grosso do Sul está nos estoques. Em 31 de julho de 2026, o centro-sul acumulava 5,79 bilhões de litros de etanol disponíveis, alta de 28,2% em relação à mesma data de 2025. Estoque farto, em tese, pressiona os preços para baixo — o que pode tornar o etanol ainda mais competitivo em relação à gasolina nos postos de combustíveis de Campo Grande, Dourados e outras cidades do estado nas próximas semanas.
MS tem hoje cerca de 40 unidades sucroalcooleiras em operação, distribuídas principalmente nas regiões de Dourados, Naviraí e Três Lagoas. Boa parte delas também processa milho safrinha, o que coloca o estado no epicentro dessa mudança de mix que o setor vive nesta safra. A rentabilidade das usinas locais depende diretamente da paridade etanol-açúcar: quando o açúcar cai, como agora, a pressão para maximizar a produção de biocombustível aumenta — e o milho de MS vira peça central do cálculo.
O que esperar para o segundo semestre em Mato Grosso do SulO pico de safra no centro-sul costuma ocorrer entre agosto e outubro. Com o estoque de etanol já elevado, analistas do setor acompanham de perto se as usinas vão manter o ritmo de produção do biocombustível ou começar a equilibrar o mix caso o açúcar se recupere no mercado externo. Para os produtores de cana de MS, a equação envolve ainda o custo do frete e a disponibilidade de mão de obra no campo, variáveis que tendem a apertar conforme a safra avança.
A Unica deve publicar os dados consolidados de julho em breve, o que permitirá uma comparação mais detalhada entre estados. Até lá, os números do Ministério da Agricultura já deixam claro: a safra 2026/27 está sendo moldada mais pela lógica do biocombustível do que pela do açúcar — e Mato Grosso do Sul, com seu peso crescente no setor, está no centro dessa transformação.
Fontes: MINISTÉRIO DA AGRICULTURA E PECUÁRIA, REUTERS