Corumbá (MS) — Existe uma ave no Pantanal que é grande o bastante para ser vista de longe, monta a maior estrutura já construída por um pássaro na região e escolhe um parceiro para a vida inteira depois de uma dança. Ela virou o retrato do bioma, e não por acaso.
O tuiuiú, cujo nome científico é Jabiru mycteria, chega a 1,60 metro de altura, abre até 3 metros de envergadura e pesa até 8 quilos. Em envergadura, é a segunda maior ave da América do Sul, atrás apenas do condor-dos-andes, e é a maior ave voadora do Pantanal.
A aparência é inconfundível: corpo branco, cabeça e pescoço pretos e sem penas, e um papo vermelho, também sem penas, que dá o contraste que aparece em toda fotografia da região.
Os ninhos do tuiuiú são as maiores estruturas construídas por aves no Pantanal. Ficam no alto das árvores mais altas, nos capões espalhados pelo campo ou na mata que acompanha os rios, e não são descartados: o casal volta ao mesmo ninho a cada estação e acrescenta material.
Ano após ano, a construção cresce. Na média, chega a 1,85 metro de diâmetro e 70 centímetros de altura, o que faz de um ninho velho uma obra de décadas.
Na temporada reprodutiva, os tuiuiús dançam em dueto e batem os longos bicos um contra o outro, num ritual que termina com a formação do casal. Formado o par, ele permanece unido para o resto da vida, e é esse casal que volta ao mesmo ninho todo ano.
A espécie ocorre do sul do México ao norte da Argentina, mas metade da população está no Brasil, e a maior parte dela na planície pantaneira. Foi essa concentração que tornou o tuiuiú a cara do bioma, condição depois oficializada: a Lei 5.950, de 1992, o definiu como ave-símbolo do Pantanal sul-mato-grossense.
A presença dele também informa. Por ser um predador de topo que depende de áreas alagadas para se alimentar, o tuiuiú costuma ser lido por pesquisadores como indicador da saúde do ecossistema: onde ele está, o ciclo de cheia e seca segue funcionando.
O Pantanal do Nabileque, em Corumbá, é uma das porções onde a ave é presença comum, na área de influência do rio Paraguai. É ali, às margens do rio, que fica o Rebojo Pantanal, propriedade privada com 27 mil hectares de Pantanal preservado, a cerca de 20 minutos de barco do Forte Coimbra e num trecho onde Brasil, Paraguai e Bolívia dividem a mesma paisagem.