Já comeu sonho com creme de baunilha em fava? O especial do mês no Gairdín tem história alemã
O doce nasceu numa campanha militar prussiana, virou brasileiro quando trocou a geleia pelo creme de confeiteiro e chega à mesa de Campo Grande com a segunda especiaria mais cara do mundo
Divulgação/Gairdín
Campo Grande (MS) — O doce que enche a vitrine de qualquer padaria brasileira não nasceu aqui, não nasceu doce de padaria e nem tinha esse nome. A história dele começa numa campanha militar, atravessa o Atlântico dentro da bagagem de imigrantes e só vira sonho depois de uma troca de recheio que aconteceu em solo brasileiro.
A origem: uma cozinha de guerra sem fornoConta-se que, em 1756, um confeiteiro de Berlim foi convocado para o exército prussiano de Frederico, o Grande. Em campanha, não havia forno à disposição, e a saída foi fritar as porções de massa em gordura quente, moldadas no formato do que ele tinha diante dos olhos: balas de canhão. Estava criado o Berliner.
O doce se espalhou pela Europa e ganhou nome em cada país por onde passou. Em Portugal virou bola de Berlim e ocupou as areias das praias no verão. Na Polônia é pączki, na Finlândia é hillomunkki, e em boa parte da Alemanha continua sendo simplesmente Berliner. Em todos eles, o recheio clássico é de geleia.
Como o Berliner virou sonho brasileiroA receita chegou ao Brasil com os imigrantes alemães, e as primeiras referências ao preparo vêm de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, a partir de 1824. Foi em São Paulo, entre as décadas de 1920 e 1930, que ele ganhou o apelido carinhoso que ficou para sempre: sonho.
Mas a mudança maior não foi o nome. Aqui, a geleia deu lugar ao creme de confeiteiro, feito com leite, ovos e baunilha. É essa troca que separa o sonho do Berliner europeu, e é ela que explica por que, no Brasil, quem decide se o doce é bom não é a massa, é o creme.
Por que a baunilha é o ponto caro dessa contaSe o creme define o sonho, a baunilha define o creme. E ela é a segunda especiaria mais cara do mundo, atrás apenas do açafrão em pistilos. Por causa do preço, a indústria criou um substituto: a essência de baunilha que se compra na prateleira é, na maior parte das vezes, vanilina sintética derivada da lignina, extraída da madeira de pinheiro.
A diferença não é sutil. A baunilha natural tem centenas de compostos aromáticos; a versão sintética entrega apenas um deles. Na prática, o sabor de baunilha da maioria dos doces industrializados nunca passou perto de uma orquídea.
O que o Gairdín faz diferenteNa Capital, o sonho é o especial do mês do Gairdín, café e chá no jardim que completa cinco anos, servido às quartas-feiras. O recheio é creme pâtissière preparado com favas de baunilha, e a casa informa que não usa essências, extratos, aromatizantes nem conservantes.
Na prática, é a versão cara da história. A fava traz as sementes pretas visíveis no creme, aquele pontilhado escuro que não aparece quando se usa aromatizante, e um perfume que a vanilina isolada não reproduz. A massa, leve, é o que sustenta o recheio sem pesar.
ServiçoO Gairdín funciona de terça a sexta-feira, das 14h às 19h30, e aos sábados, domingos e feriados, das 8h às 12h30. O cardápio também está disponível por delivery no iFood.