Usinas redirecionam cana ao etanol e açúcar cai 26% no Centro-Sul

Dados da Unica revelam que a safra 2026/27 já acumula retração de 12% na produção de açúcar, enquanto etanol bate alta de 20% no período.

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A escolha das usinas brasileiras de direcionar mais cana para o etanol do que para o açúcar está redesenhando o mercado global da commodity: a produção de açúcar no Centro-Sul recuou 26,3% em junho, encerrando o mês em 3,90 milhões de toneladas, segundo dados divulgados pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA) na última quinta-feira (6). O impacto foi imediato nas bolsas internacionais — o açúcar bruto em Nova York atingiu a maior cotação em mais de quatro meses.

O recuo na fabricação de açúcar não é acidente climático nem falha operacional: é estratégia. Com o etanol em expansão e a demanda por biocombustíveis aquecida, as usinas estão priorizando a fermentação da cana em vez do refino para adoçante. O resultado é uma oferta global mais enxuta, justo quando o mercado já monitorava perspectivas de déficit mundial para a safra 2026/27.

Bolsas disparam com sinal vindo do maior produtor do mundo

O Brasil responde pela maior fatia da produção mundial de açúcar, o que torna qualquer variação do Centro-Sul um termômetro imediato para os pregões internacionais. Na Bolsa de Nova York (ICE Futures US), o contrato de outubro para o açúcar bruto fechou a 15,47 cents de dólar por libra-peso, alta de 42 pontos — o nível mais elevado em mais de quatro meses. Em Londres (ICE Europe), o açúcar branco para outubro encerrou a US$ 486,90 por tonelada, avanço de 100 pontos e o patamar mais alto em um mês.

Por trás dos números das bolsas está uma equação simples: menos açúcar brasileiro disponível, combinado com perspectivas de déficit global, empurra os preços para cima. A moagem total de cana no Centro-Sul em junho foi de 69,79 milhões de toneladas — queda de 14,5% ante as 81,62 milhões de toneladas processadas no mesmo mês da safra anterior.

Etanol avança enquanto açúcar recua na prioridade das usinas

O outro lado da equação é o crescimento expressivo do etanol. Em junho, a produção do biocombustível chegou a 3,80 bilhões de litros, alta de 2,47% na comparação anual. No acumulado da safra 2026/27 até 1º de julho, o etanol já soma 11,37 bilhões de litros, crescimento de 20,44% em relação ao ciclo anterior — um salto que evidencia o quanto as usinas estão apostando no combustível renovável.

No mesmo período, a produção acumulada de açúcar ficou em 10,75 milhões de toneladas, retração de 12,38% frente à safra passada. O movimento confirma uma tendência estrutural: a cana está sendo disputada internamente, e o etanol — beneficiado por políticas de descarbonização e demanda crescente — tem levado vantagem nessa disputa.

O que esse cenário significa para Mato Grosso do Sul

Mato Grosso do Sul integra o cinturão sucroenergético do Centro-Sul e sente diretamente os movimentos desse mercado. O estado abriga dezenas de usinas, especialmente nas regiões de Dourados, Naviraí e Maracaju, que também enfrentam a mesma decisão estratégica entre açúcar e etanol. A alta nos preços internacionais pode, no médio prazo, reequilibrar o mix de produção — tornando o açúcar mais atrativo novamente — mas no curto prazo a pressão pelo etanol segue forte, sustentada pela política nacional de biocombustíveis e pelo mercado interno aquecido.

Para os produtores rurais sul-mato-grossenses que fornecem cana às usinas locais, a dinâmica de preços internacionais influencia diretamente os contratos de fornecimento e as negociações da próxima safra. Com o açúcar em alta nas bolsas e o etanol batendo recordes de produção, o setor entra no segundo semestre de 2026 diante de um cenário de escolhas — e qualquer sinal climático nos canaviais do interior pode amplificar ainda mais a volatilidade.

Fontes: UNICA — UNIÃO DA INDÚSTRIA DE CANA-DE-AÇÚCAR E BIOENERGIA