Soja bate recorde de preço em julho, mas indústria perde 20% na margem

Grão atingiu R$ 116,74 por saca em Mato Grosso no mês passado, alta de 9,5% sobre junho, enquanto o esmagamento industrial enfrenta pressão crescente

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A soja encerrou julho como o mês mais rentável do ano para o produtor de Mato Grosso: a saca chegou à média de R$ 116,74, um salto de 9,49% sobre junho e de 3,91% frente ao mesmo período de 2025, segundo levantamento do IMEIA (Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária). O problema é que, enquanto o agricultor comemora, a indústria esmagadora vê sua margem derreter — a queda supera 20% no período, abrindo um paradoxo raro no mercado de grãos.

O cenário expõe uma tensão estrutural que vai além de um mês de alta: o preço pago ao produtor subiu, mas a rentabilidade de quem processa a soja — transformando-a em farelo proteico e óleo vegetal — foi corroída pela abundância dos próprios subprodutos. Com mais farelo e óleo disponíveis no mercado interno do que a demanda consegue absorver, as tradings e esmagadoras trabalham com margens cada vez mais estreitas, o que pode frear a demanda pela oleaginosa nos próximos meses.

Por que o preço subiu e quem ganhou com isso

A valorização da soja em julho tem raízes no câmbio favorável ao exportador, na demanda firme da China e na redução do ritmo de vendas pelos produtores brasileiros, que aguardavam justamente uma janela de preços melhores. O resultado foi uma pressão compradora que puxou as cotações para o patamar mais alto desde o início de 2026. Para o produtor que ainda tinha estoque em mãos, o momento representou uma oportunidade concreta de recompor receita após meses de oscilação.

O analista de mercado Vlamir Brandalize alerta, porém, que a foto do produtor sorrindo não conta a história inteira do setor. "A indústria enfrenta um cenário desafiador, com margens apertadas e uma oferta crescente de farelo e óleo, o que pode impactar a demanda interna", avaliou o especialista. Na prática, isso significa que, se a indústria segurar o ritmo de compra, o preço no campo pode perder fôlego nos próximos ciclos de negociação.

Esmagamento em xeque: o gargalo do farelo e do óleo

A margem de esmagamento — indicador que mede a diferença entre o custo da soja comprada e a receita gerada pela venda de farelo e óleo — é o termômetro da saúde financeira das processadoras. Quando ela cai mais de 20% num único mês, o sinal é de alerta: as plantas industriais trabalham com retorno reduzido e podem desacelerar as compras de grão para evitar acumulação de subprodutos sem saída.

O excesso de farelo de soja no mercado doméstico é reflexo direto de uma safra brasileira robusta e de um ciclo em que a exportação do farelo não acompanhou o ritmo da produção. O óleo vegetal enfrenta dinâmica semelhante, com estoques elevados pressionando para baixo o preço recebido pelas esmagadoras. O efeito combinado é uma espécie de tesoura: o insumo (a soja) ficou mais caro e o produto final (farelo + óleo) se desvalorizou.

O que esse movimento significa para Mato Grosso do Sul

Mato Grosso do Sul é o quinto maior produtor de soja do Brasil, com destaque para regiões como Maracaju, Dourados, Chapadão do Sul e Costa Rica. A oscilação de preços no estado vizinho funciona como antecipação do que deve chegar ao MS, já que ambos os mercados respondem às mesmas variáveis — câmbio, demanda chinesa e oferta de subprodutos. Produtores sul-mato-grossenses que ainda têm soja da safra 2025/2026 em armazém acompanham com atenção a janela aberta em julho, avaliando se vale concluir as vendas agora ou aguardar novos movimentos do dólar.

O alerta sobre a margem da indústria, no entanto, recomenda cautela. Se as esmagadoras reduzirem o ritmo de compra para reequilibrar seus estoques de farelo e óleo, a pressão compradora que sustentou a alta de julho pode arrefecer rapidamente — e os preços voltar a testar patamares inferiores antes do fim do terceiro trimestre. O mercado de soja, como sempre, pede atenção ao movimento das peças além do grão em si.

Fontes: IMEIA, CANAL RURAL