Escolha de vice-presidenciável surpreende mercado e dólar apaga queda
Indicação de Alfredo Gaspar como vice na chapa de Flávio Bolsonaro reverteu baixa do dólar nesta quarta; Copom define Selic à noite
Divulgação
O dólar chegou a operar abaixo de R$ 5,10 nesta quarta-feira, 5 de agosto, impulsionado por pesquisa eleitoral e pelo cenário externo favorável, mas o anúncio do nome do deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) como candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) reverteu o movimento. A moeda norte-americana encerrou o pregão praticamente estável, com queda simbólica de 0,04%, cotada a R$ 5,1283 na venda.
A sessão foi marcada por dois movimentos opostos em questão de horas — uma dinâmica que evidencia como o noticiário político brasileiro tem ditado o ritmo do câmbio às vésperas das eleições de 2026. Enquanto analistas e operadores monitoravam cada pesquisa e cada definição de chapa, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central se reunia para decidir o futuro da taxa Selic, com resultado esperado para depois das 18h30.
Pesquisa encurtou distância entre candidatos — e o dólar reagiuNo início da manhã, o levantamento Genial/Quaest mostrou que a diferença entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro diminuiu em relação à rodada anterior. Na projeção de segundo turno, Lula aparece com 44% das intenções de voto contra 39% de Flávio — margem de erro de 2 pontos percentuais. No levantamento anterior, a diferença era maior: 45% a 37%. Para o mercado financeiro, a aproximação nos números foi lida como um sinal de menor risco fiscal no horizonte, já que parte dos investidores avalia a eventual reeleição de Lula como um fator desfavorável ao equilíbrio das contas públicas. O dólar recuou e marcou a mínima do dia, R$ 5,0975, às 11h07.
O cenário externo também colaborava: a expectativa de um possível acordo entre Estados Unidos e Irã para conter o conflito no Oriente Médio estimulava o apetite por moedas de países emergentes, incluindo o peso colombiano e o peso mexicano. O índice do dólar frente a uma cesta de seis moedas fortes cedia 0,16%, para 99,699 pontos.
Gaspar como vice inverteu a tendência em minutosO equilíbrio durou pouco. Minutos depois do anúncio oficial da candidatura de Gaspar à vice-presidência, o dólar se aproximou dos R$ 5,13, zerando todas as perdas acumuladas na sessão. A escolha surpreendeu porque o nome não circulava nos bastidores e destoava da estratégia declarada da campanha de Flávio, que buscava ampliar o apoio entre o eleitorado feminino. "Gaspar não foi bem recebido", disse um operador ouvido pela agência Reuters, resumindo o humor do mercado no momento do anúncio. Às 14h21, a divisa atingiu o pico do dia, a R$ 5,1348, alta de 0,09%.
O episódio reforça um padrão que vem se repetindo: notícias que favorecem Flávio na corrida presidencial tendem a pressionar o dólar para baixo, enquanto elementos que enfraquecem sua candidatura — ou que favorecem uma percepção de menor disciplina fiscal — empurram a moeda para cima. O mercado, na prática, já precifica o cenário eleitoral de 2026 no câmbio do dia a dia.
Selic e juros americanos: o fundo do prato para quem opera em MSPara além da política, a decisão do Copom era o evento técnico mais aguardado da sessão. O consenso entre analistas aponta para um corte de 25 pontos-base na Selic, que hoje está em 14,25% ao ano — uma das taxas mais altas entre as grandes economias. Esse diferencial de juros em relação a países como Estados Unidos e Japão vinha atraindo capital estrangeiro para o Brasil nos últimos meses, mas o cenário começa a mudar: há perspectiva de alta nos juros americanos e de novos cortes por aqui, o que pode reduzir esse atrativo.
Para o leitor de Mato Grosso do Sul, a oscilação do câmbio tem impacto direto em pelo menos três frentes: no custo das importações pela fronteira com o Paraguai, no valor dos insumos agrícolas cotados em dólar — fertilizantes, defensivos, máquinas — e nas margens do agronegócio estadual, setor que responde por parcela significativa do PIB sul-mato-grossense. Um dólar que se estabiliza ao redor de R$ 5,12 a R$ 5,13 mantém o ambiente de planejamento relativamente previsível para produtores e importadores da região, embora a volatilidade política possa mudar esse quadro rapidamente nas próximas semanas.
A decisão do Copom e o tom do comunicado que a acompanha devem definir a direção do câmbio nas próximas sessões — e, junto com ela, o custo do dólar para quem compra, vende ou planeja nas fronteiras e no campo de Mato Grosso do Sul.
Fontes: REUTERS, BANCO CENTRAL DO BRASIL