Soja a R$ 150 nos portos: produtores aproveitam melhor semana do ano para vender
Apesar da queda em Chicago após realização de lucros, preços da soja no Brasil seguem firmes e estimulam avanço na comercialização da safra
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Mesmo com o recuo das cotações na Bolsa de Chicago nesta terça-feira (21), os preços da soja nos portos brasileiros sustentaram o patamar de R$ 150,00 por saca, criando uma janela que analistas e produtores descrevem como possivelmente a melhor oportunidade de venda do ano. O movimento de baixa em Chicago foi classificado como técnico — resultado de realização de lucros após alta superior a 20 pontos na sessão anterior, a maior em aproximadamente nove semanas.
O mercado internacional também reagiu ao relatório semanal de safra divulgado pelo USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), que apontou melhora nas condições das lavouras norte-americanas em um período crítico para a definição do potencial produtivo. O dado esfriou o ímpeto comprador dos fundos de investimento, que haviam empurrado os contratos a máximas recentes. Ainda assim, o mercado permanece acima da marca psicológica de US$ 12,00 por bushel — nível que havia sido rompido consistentemente apenas agora, após semanas de negociações abaixo desse patamar.
Correção em Chicago não contamina preços no BrasilAs perdas na bolsa americana variaram entre 3,25 e 6,50 pontos nos principais vencimentos. O contrato de agosto fechou a US$ 12,19 e o de novembro a US$ 12,22 por bushel. O farelo subiu 1%, encerrando a US$ 326,90 por tonelada curta, enquanto o óleo de soja recuou 0,8%, para 71,56 cents por libra-peso.
No Brasil, a combinação da queda em Chicago com o recuo do dólar pressionou levemente as referências internas, mas o impacto foi contido. "Apenas o spot nos portos recuou cerca de R$ 1,00 por saca, com os demais contratos mantendo as referências da sessão anterior, mirando os R$ 150,00 por saca nas posições mais próximas", explicou o consultor Vlamir Brandalizze, da Brandalizze Consulting. No terminal de Rio Grande, os indicativos chegaram a R$ 151,00 para entrega em novembro com pagamento em dezembro, R$ 152,00 para pagamento em janeiro e R$ 159,00 por saca para pagamento no próprio novembro.
Produtores aceleram vendas diante de janela favorávelCom os preços sustentados acima dos R$ 150,00, a comercialização da safra avançou de forma expressiva. Segundo Brandalizze, os produtores estão aproveitando ativamente o momento para fixar contratos, reconhecendo que a combinação atual de câmbio, prêmios firmes e demanda aquecida raramente se alinha de forma tão favorável. A avaliação do consultor é de que esta pode ser a melhor semana do ano para negociar a oleaginosa.
Os fundamentos que sustentam essa percepção incluem o forte ritmo das exportações brasileiras, a competitividade do produto sul-americano no mercado internacional e a continuidade das compras chinesas. "A demanda continua dando suporte, enquanto a oferta segue como ponto de preocupação, apesar de as condições de lavoura terem vindo levemente melhores do que as da semana passada", avaliaram analistas da Agrinvest Commodities. Para o produtor de Mato Grosso do Sul — um dos estados mais representativos na produção nacional de soja —, o momento exige atenção: com o plantio da próxima safra ainda distante, o espaço para aguardar janelas ainda melhores existe, mas o risco de reversão climática nos EUA pode rapidamente alterar o cenário.
Clima nos EUA define os próximos passos do mercadoDaqui em diante, as previsões meteorológicas para o Meio-Oeste norte-americano devem continuar ditando o humor do mercado. As projeções atuais indicam boas condições de umidade e temperaturas favoráveis ao desenvolvimento das lavouras americanas — cenário que, se confirmado, tende a limitar novas altas em Chicago e reduzir o chamado prêmio climático embutido nos contratos mais longos.
Por outro lado, qualquer deterioração nas previsões para agosto pode devolver volatilidade ao mercado e reabrir espaço para novas valorizações. O comportamento da demanda chinesa — que neste ciclo tem oscilado entre compras de soja brasileira e norte-americana a depender de questões logísticas e políticas comerciais — também permanece no radar dos operadores. Para o produtor sul-mato-grossense, o conselho dos analistas converge: a conjuntura atual é rara, e a janela pode ser mais estreita do que parece.
Fontes: BRANDALIZZE CONSULTING, AGRINVEST COMMODITIES, USDA