China compra mais soja do Brasil e menos dos EUA; MS é peça-chave nesse jogo
Em junho, embarques brasileiros à China cresceram 13,7% e bateram recorde mensal, enquanto compras da soja americana despencaram 20,6% no período.
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A disputa comercial entre Estados Unidos e China está redesenhando o mapa da soja no mundo — e o Brasil, maior produtor global, colhe os frutos. Em junho de 2025, a China importou 12,08 milhões de toneladas de soja brasileira, um salto de 13,7% ante o mesmo mês de 2024, enquanto as compras de grãos americanos despencaram 20,6% no mesmo período, atingindo apenas 1,27 milhão de toneladas. O resultado empurrou o volume total de soja importada pela China em junho para 13,55 milhões de toneladas, o maior já registrado para o mês na história das alfândegas chinesas.
O cenário é consequência direta das turbulências comerciais entre Washington e Pequim dos últimos meses. Compradores chineses adiaram aquisições da safra norte-americana do ano passado aguardando desfechos diplomáticos, e o Brasil — que tem logística de exportação consolidada e safra robusta — preencheu o espaço. Para os produtores de Mato Grosso do Sul, cujos grãos embarcam principalmente pelos portos de Santos e Paranaguá com destino à Ásia, esse movimento representa uma janela de oportunidade concreta.
Tensão comercial entre EUA e China abre espaço para o BrasilA queda nas importações americanas não é novidade isolada: no acumulado de janeiro a junho de 2025, a China reduziu em 42,4% as compras de soja dos Estados Unidos em relação ao mesmo semestre do ano anterior, totalizando apenas 9,31 milhões de toneladas. No mesmo intervalo, os embarques brasileiros cresceram 9,1%, chegando a 34,75 milhões de toneladas. Os dados foram divulgados pela Administração Geral das Alfândegas da China nesta segunda-feira, 20 de julho.
O pano de fundo envolve uma cúpula realizada entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping nos dias 14 e 15 de maio, que manteve o compromisso chinês de adquirir 25 milhões de toneladas anuais de soja norte-americana até 2028. Após o encontro, Pequim retomou gradualmente as compras da nova safra americana — mas os números de junho ainda refletem o represamento dos meses anteriores. O desembaraço de cargas atrasadas nos portos também contribuiu para o pico histórico do mês.
Portos cheios e cargas represadas ampliam o recorde de junhoAnalistas apontam que parte do volume recorde registrado em junho decorre de cargas que estavam represadas nos terminais portuários aguardando clareza sobre tarifas e acordos comerciais. Com a sinalização de estabilidade após a cúpula de maio, o fluxo foi liberado, e o Brasil acabou sendo o principal beneficiado — tanto pela posição geográfica favorável quanto pelo calendário da safra, que costuma ter pico de embarques entre março e agosto.
O recorde mensal também sinaliza que a capacidade logística brasileira foi posta à prova e respondeu. Portos como Santos e Paranaguá, por onde escoam significativas parcelas da produção de Mato Grosso do Sul, operaram com alta demanda. O estado figura entre os maiores produtores nacionais de soja, com área plantada que supera 3,5 milhões de hectares na safra 2024/25, segundo estimativas da Aprosoja/MS.
O que esse movimento significa para os produtores sul-mato-grossensesPara o produtor de Mato Grosso do Sul, o fortalecimento da demanda chinesa pelo grão brasileiro tem reflexo direto na formação de preço. Quando a China substitui fornecimento americano por brasileiro em escala, a pressão compradora eleva as cotações nas praças regionais. Nos últimos pregões, a soja em Chicago sustentou patamares próximos aos US$ 12 por bushel, nível que, combinado com o câmbio favorável, tem animado produtores a fechar contratos antecipados para a próxima safra.
A perspectiva, no entanto, exige cautela. O compromisso chinês de retomar compras americanas — ainda que lento — deve reequilibrar parte do fluxo ao longo do segundo semestre. Mesmo assim, analistas do setor avaliam que o Brasil consolidou fatias de mercado que dificilmente serão revertidas no curto prazo, especialmente diante da confiabilidade demonstrada na entrega dos volumes contratados. Para o agronegócio sul-mato-grossense, o cenário reforça a importância estratégica de avançar em logística e infraestrutura de escoamento para aproveitar ao máximo as janelas abertas pelo reordenamento global do comércio de grãos.
Fontes: REUTERS, ADMINISTRAÇÃO GERAL DAS ALFÂNDEGAS DA CHINA