Tarifas dos EUA ao Brasil podem chegar a 37,5% com acusação de trabalho forçado
Washington incluiu o Brasil em lista de 54 países tidos como omissos no combate ao trabalho forçado, o que pode elevar a sobretaxa americana em 12,5 pontos percentuais.
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O governo dos Estados Unidos pode ampliar de 25% para 37,5% as tarifas cobradas sobre produtos brasileiros após o Escritório do Representante de Comércio Americano (USTR) incluir o Brasil em uma lista de 54 países acusados de ser omissos no combate ao trabalho forçado — práticas que, segundo Washington, geram vantagens comerciais indevidas e distorcem o mercado internacional. A definição sobre o acréscimo de 12,5 pontos percentuais deve ser anunciada na próxima sexta-feira, dia 24 de julho.
O momento é delicado para o agronegócio brasileiro. As tarifas base de 25% impostas pelo governo Donald Trump na última quarta-feira já são consideradas definitivas e, segundo estimativas do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), devem afetar cerca de 18% das exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano — o equivalente a US$ 7,4 bilhões com base nos embarques de 2024. Projeções da consultoria Integra Associados são ainda mais pessimistas e apontam que o impacto pode alcançar 31% das exportações ao país.
Casa Branca aponta carne bovina brasileira como alvo principalO relatório da Casa Branca que embasa a investigação sustenta que o uso de trabalho forçado em propriedades rurais teria contribuído para dobrar as exportações brasileiras de carne para os países investigados entre 2015 e 2025. O documento afirma que as exportações de carne bovina congelada do Brasil para a China superam em muito as norte-americanas, que registraram queda no mesmo período, e classifica esse cenário como um desequilíbrio que "onera" o comércio dos Estados Unidos. "É notório que o trabalho forçado é utilizado na produção de gado no Brasil", diz o texto americano.
A acusação tem peso direto para Mato Grosso do Sul, um dos maiores produtores de proteína animal do país, com rebanho bovino superior a 22 milhões de cabeças e frigoríficos que figuram entre os maiores exportadores nacionais. Qualquer elevação nos custos de acesso ao mercado americano pressiona diretamente a cadeia do boi gordo no estado, do produtor ao frigorífico.
Governo brasileiro contesta e aciona regras da OMCO Itamaraty, por meio do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, rechaçou as acusações e classificou as sobretaxas como incompatíveis com as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). A nota brasileira destacou que o país já incorporou ao Código Penal o conceito de "condição análoga à de escravizado" e mantém a chamada "lista suja" do trabalho escravo — mecanismo de transparência que responsabiliza empregadores flagrados com mão de obra em situação degradante. O Itamaraty ainda alertou que as sanções unilaterais americanas podem, paradoxalmente, fragilizar políticas públicas internas de combate à exploração laboral.
O ministro do Mdic, Márcio Elias Rosa, reconheceu a gravidade da situação mas sinalizou que as negociações entre os dois países continuam abertas. "A expectativa é que virá para todos", disse o ministro ao se referir ao possível acréscimo tarifário, admitindo que a tendência é de aplicação universal da sobretaxa, sem espaço para isenções individuais. Até o dia 24, a cobrança adicional temporária vigente é de 10%, prevista na Seção 122 da legislação comercial americana.
O que esperar para o agronegócio de MS nos próximos diasPara o setor produtivo sul-mato-grossense, a semana que vem será decisiva. Se o USTR confirmar a alíquota de 37,5% sem qualquer exceção para o Brasil, exportadores de carne, soja, celulose e outros itens de peso no estado terão de recalcular rotas comerciais — reforçando a dependência do mercado chinês num cenário em que Washington já critica exatamente esse vínculo.
O impasse comercial entre Brasil e EUA também chega num momento em que negociações entre o Mercosul e outros blocos ganham força como alternativa de diversificação. Para Mato Grosso do Sul, estado com fronteira com o Paraguai e posição estratégica no corredor de exportação sul-americano, o monitoramento do desfecho desta investigação é fundamental — tanto para frigoríficos e tradings quanto para o agronegócio familiar que integra a cadeia de fornecimento.
Fontes: MDIC, USTR, ITAMARATY, CANAL RURAL