Boi gordo fecha semana em alta, mas carne perde espaço para o frango

Frigoríficos enfrentam dificuldade para compor escalas de abate e pressionam cotações para cima, enquanto atacado recua e consumo segue retraído

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O mercado físico do boi gordo encerrou a semana com pressão compradora intensa e cotações acima da média de referência. A demanda parte principalmente dos frigoríficos, que seguem com dificuldade para montar suas escalas de abate — desequilíbrio que, segundo analistas, deve sustentar o movimento de alta pelo menos no curto prazo. Para Mato Grosso do Sul, um dos maiores estados produtores de bovinos do país, o cenário é de atenção redobrada tanto para quem vende quanto para quem processa.

O paradoxo do momento é que o preço do animal em pé sobe, mas a cadeia seguinte — o mercado atacadista de carne — caminhou na direção oposta ao longo desta sexta-feira. O consumo na segunda quinzena do mês costuma perder fôlego, e dessa vez não foi diferente. O resultado é uma espécie de tesoura: o produtor ganha mais pelo gado, mas o frigorífico vê suas margens encolherem.

Frigoríficos pressionados entre a compra cara e a venda difícil

"Nesse ambiente, a tendência de curtíssimo prazo ainda remete à continuidade deste movimento de alta. Vale destacar que o mercado atacadista permanece fragilizado. As margens da indústria tendem a ficar negativas no mercado interno", analisou Fernando Henrique Iglesias, analista da consultoria Safras & Mercado. A avaliação aponta para uma equação delicada: a indústria frigorífica compra gado mais caro porque precisa garantir volume, mas não consegue repassar esse custo ao varejo com a mesma velocidade.

Para os produtores sul-mato-grossenses, o sinal imediato é positivo — quem tem boi pronto para abate está encontrando demanda aquecida. Mas especialistas alertam que margens negativas no setor processador podem sinalizar uma correção à frente, caso a pressão de compra se arrefeça assim que as escalas estiverem compostas.

Carne bovina perde competitividade frente ao frango

Enquanto o gado em pé valoriza, a carne bovina enfrenta uma disputa cada vez mais dura nas gôndolas. "A carne bovina segue pouco competitiva em comparação com as proteínas concorrentes, em especial em relação à carne de frango. O baixo poder de compra da população ainda impacta diretamente nas decisões de consumo, com prioridade para produtos que causem menor impacto na renda familiar", pontuou Iglesias. O frango, com preço significativamente menor por quilo, tem se beneficiado dessa migração de consumidores que ajustam o carrinho ao orçamento apertado.

Esse comportamento é especialmente relevante para entender o futuro da demanda interna. Em Mato Grosso do Sul, onde a pecuária bovina representa uma das maiores fontes de renda do agronegócio estadual, a perda de competitividade no varejo interno acende um alerta: o crescimento das cotações do boi gordo pode estar sendo sustentado muito mais pela dificuldade logística dos frigoríficos do que por uma recuperação real do consumo de carne.

Exportações e câmbio no radar da próxima semana

Outro fator que o mercado vai monitorar com atenção é o dado semanal de exportações de carne bovina, cuja divulgação está prevista para a próxima segunda-feira, 20 de julho. As vendas externas têm sido um elemento central para sustentar os preços — e qualquer variação expressiva nesse fluxo pode alterar o humor do mercado rapidamente.

No câmbio, o dólar comercial encerrou o pregão desta sexta com alta de 0,20%, cotado a R$ 5,11 para venda. Na semana, a valorização acumulada foi de 0,06% — variação modesta, mas que mantém o câmbio em patamar que favorece exportadores de proteína animal. Para Mato Grosso do Sul, estado que figura entre os principais exportadores de carne bovina do Brasil, um dólar sustentado acima de R$ 5,00 contribui para que o produto ganhe competitividade lá fora mesmo quando o mercado interno desacelera.

A próxima semana promete ser decisiva para revelar se a pressão compradora dos frigoríficos vai se manter ou se o mercado começa a acomodar as escalas de abate e cede parte da alta recente. Os dados de exportação serão o principal termômetro desse movimento.

Fontes: SAFRAS & MERCADO, CANAL RURAL