Sem Moratória da Soja, Amazônia pode perder 1,4 mi de hectares em 10 anos
Estudo publicado na revista Science alerta que o fim do acordo voluntário elevaria o desmatamento em 14% acima das taxas históricas, com julgamento no STF previsto para agosto.
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Um estudo publicado na conceituada revista científica Science projeta que o encerramento da Moratória da Soja pode resultar no desmatamento de 1,4 milhão de hectares adicionais na Amazônia ao longo dos próximos dez anos — área equivalente a quase o dobro do território de Mato Grosso do Sul inteiro destinado à conservação. O trabalho, que reúne pesquisadores do WWF Brasil, Greenpeace Brasil, da Land Conservation Association e das universidades de Wisconsin e Illinois, nos Estados Unidos, chega em um momento decisivo: o Supremo Tribunal Federal (STF) começa a julgar as ações que questionam a legalidade do acordo a partir do dia 12 de agosto.
A Moratória da Soja vigora desde 2008 como um pacto voluntário entre empresas do setor, organizações da sociedade civil e o governo federal, proibindo a compra de grãos cultivados em áreas desmatadas da floresta amazônica. Nos últimos meses, o mecanismo passou a enfrentar pressão crescente: em 5 de janeiro de 2026, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) anunciou sua saída formal do acordo, e em junho as negociações conduzidas no âmbito do STF foram encerradas sem consenso, devolvendo os processos aos ministros relatores para deliberação.
O que a ciência diz sobre o custo ambiental do fim do acordoA perda florestal projetada pelos pesquisadores não é apenas um número abstrato. O estudo calcula que o desmatamento adicional de 1,4 milhão de hectares geraria aproximadamente 745 milhões de toneladas de CO2 equivalente — volume comparável ao total das emissões anuais do Canadá, país do G7. Essa escala coloca o debate sobre a moratória diretamente no centro das discussões climáticas globais, em especial porque o Brasil busca consolidar sua imagem internacional como potência verde às vésperas de grandes eventos climáticos.
O trabalho também mapeia as áreas em maior risco: até 28,7 milhões de hectares de florestas públicas estariam vulneráveis à pressão especulativa e ao avanço da fronteira agrícola caso o acordo deixe de existir, sobretudo em regiões onde há perspectiva de expansão de infraestrutura nos próximos anos. Para os autores, a combinação de disponibilidade de terra, expectativa de estradas e ausência de regras setoriais cria o cenário mais propício ao desmate.
Produtores perderam renda com a moratória? O estudo respondeUm dos argumentos mais recorrentes de críticos do acordo é o de que ele teria cerceado oportunidades econômicas para produtores rurais amazônicos. A pesquisa confronta essa tese com dados concretos. Segundo os pesquisadores, apenas cerca de 739 mil hectares de áreas aptas à soja foram desmatados legalmente após 2008, e a maior parte dessas terras não pertencia a propriedades produtoras do grão — o que enfraquece a narrativa de que a moratória bloqueou expansão produtiva relevante.
O estudo foi além e comparou os preços pagos aos agricultores em municípios cobertos pelo acordo com os praticados em regiões vizinhas fora do seu escopo. A conclusão é direta: o mecanismo não afetou a remuneração dos produtores nem gerou distorções no mercado de soja. Adicionalmente, os pesquisadores identificaram 1,7 milhão de hectares de áreas já abertas e aptas ao cultivo dentro da Amazônia, suficientes para expansão da cultura sem necessidade de novos desmatamentos. Nos primeiros dez anos de vigência, a moratória reduziu em 35% o desmatamento nas áreas de risco para expansão da soja, evitando a perda de 1,8 milhão de hectares de floresta.
STF, Mato Grosso do Sul e o que vem a seguirO julgamento marcado para 12 de agosto no STF inclui uma questão com impacto direto sobre Mato Grosso do Sul: entre as ações pautadas está um processo que questiona a validade de uma lei do estado de Mato Grosso relacionada a incentivos fiscais e doações de terrenos públicos vinculados à produção de soja na região amazônica — mecanismo que, segundo os críticos, poderia estimular novos desmatamentos ao reduzir o custo de conversão de floresta em lavoura. O ministro Flávio Dino também tem uma liminar em vigor sobre o tema, que deverá ser analisada pelo plenário.
Para o agronegócio sul-mato-grossense, que responde por fatia significativa da produção nacional de soja com práticas consolidadas de compliance ambiental, o desfecho do julgamento pode tanto representar um risco reputacional — caso o Brasil seja associado ao fim de um dos acordos setoriais mais citados no mundo — quanto uma oportunidade de reafirmar o diferencial competitivo de produtores que já operam dentro de padrões sustentáveis rigorosos. A decisão do Supremo, portanto, não interessa apenas à Amazônia: ela moldará as regras do jogo para toda a cadeia da soja brasileira.
Fontes: REVISTA SCIENCE, WWF BRASIL, GREENPEACE BRASIL, STF