Por décadas tratado apenas como uma ameaça ao meio ambiente, à produção rural e à saúde animal, o javali (Sus scrofa) começa a assumir um novo papel no cenário global: o de proteína premium, valorizada em restaurantes sofisticados e mercados especializados da Europa, América do Norte e Ásia.
Dados de consultorias internacionais indicam que o mercado global de carne de javali movimentou cerca de US$ 1,32 bilhão em 2024, com projeção de crescimento para US$ 2,21 bilhões até 2033, impulsionado pela busca por carnes exóticas, sustentáveis e de alto valor nutricional.
No Brasil, porém, o animal segue oficialmente classificado como espécie exótica invasora e nociva, com controle autorizado, mas uso comercial severamente restrito. Em Mato Grosso do Sul, estado que reúne grandes áreas agrícolas e abriga parte significativa do Pantanal, o javali é visto majoritariamente como problema — embora, para especialistas, ele também represente uma oportunidade ainda inexplorada, caso haja avanços regulatórios e sanitários.
Uma praga que custa caro ao campo
A presença do javali provoca prejuízos expressivos à agricultura. Produtores relatam destruição de lavouras de soja e milho ainda na fase de plantio, erosão do solo, danos a áreas de preservação permanente e contaminação de fontes hídricas. Estimativas da Aprosoja/MS indicam que as perdas podem chegar a 40% da produção em algumas propriedades, especialmente em regiões próximas a matas, rios e áreas alagadas.
Pesquisas da Embrapa Pantanal reforçam que a espécie tem alta capacidade reprodutiva, ausência de predadores naturais e grande adaptabilidade, o que dificulta o controle populacional.
O que diz a lei brasileira
Desde 2013, a Instrução Normativa Ibama nº 03/2013 declara o javali como nocivo em todo o território nacional e autoriza seu controle por meio de abate, desde que realizado por pessoas cadastradas e autorizadas. A norma, no entanto, proíbe a criação comercial e estabelece regras rígidas para manejo, transporte e destinação das carcaças. O texto não se aplica ao chamado porco-monteiro do Pantanal, população feral histórica da região, o que adiciona complexidade ao tema em MS.
Na prática, isso significa que a carne obtida no controle populacional não pode ser comercializada legalmente, limitando o aproveitamento econômico e levando, muitas vezes, ao descarte do animal abatido.
Como o javali virou iguaria no exterior
Em contraste com o Brasil, países europeus tratam o javali como recurso alimentar estratégico. Na Itália, Espanha, França e Alemanha, a carne é consumida há séculos, seja proveniente da caça controlada ou de sistemas regulamentados. Restaurantes valorizam o sabor intenso, a textura firme e o perfil nutricional: menos gordura e mais proteína do que a carne suína convencional.
Relatórios de mercado apontam que a carne de javali se consolidou como parte do segmento de “game meats” (carnes de caça), associado a sustentabilidade, rastreabilidade e consumo consciente. Esse segmento deve ultrapassar US$ 9 bilhões globais até 2032, com o javali entre os principais produtos.
Na Ásia, estudos recentes mostram cadeias de suprimento estruturadas em países como Vietnã, Japão e Tailândia, onde a carne é consumida tanto em pratos tradicionais quanto em restaurantes de alto padrão.
Entre o problema ambiental e a proteína do futuro
O caso do javali ilustra um dilema contemporâneo do agronegócio e da gestão ambiental: como transformar um passivo ecológico em ativo econômico sem ampliar riscos ambientais. Enquanto o mercado internacional avança e valoriza a carne como proteína premium, o Brasil ainda enfrenta entraves legais e estruturais para seguir o mesmo caminho.