Posto do Pátio Central emite 1.098 CINs com símbolo TEA e vira modelo em MS
Sala adaptada para pessoas com autismo no posto mais movimentado de Campo Grande completa um ano com resultados que redefinem o atendimento público inclusivo no Estado.
Divulgação
O posto de identificação do Pátio Central Shopping, em Campo Grande, tornou-se em um ano o principal emissor de Carteiras de Identidade Nacional (CIN) com o símbolo do Transtorno do Espectro Autista (TEA) em Mato Grosso do Sul — responsável por 20% de todos os documentos desse tipo expedidos no Estado desde janeiro de 2024, totalizando 1.098 unidades até o fim de março de 2025. A marca é resultado direto da Sala Posto Amigo do Autista, espaço adaptado inaugurado há um ano com investimento de R$ 82 mil e que transformou a rotina de famílias que antes enfrentavam remarcações e atendimentos domiciliares.
A iniciativa ganhou corpo em um dos postos mais exigidos do país: com cerca de 500 atendimentos diários e mais de 134 mil documentos emitidos desde a implantação da nova CIN, a unidade responde por quase um quinto de toda a produção estadual — o que torna ainda mais significativo o fato de ter incorporado uma estrutura dedicada à inclusão sem comprometer o volume do serviço. O projeto é viabilizado por contrato de gestão com a Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública) e está vinculado ao Instituto de Identificação da Polícia Científica de MS.
Um ambiente projetado para reduzir barreiras sensoriaisA sala adaptada não surgiu de um projeto teórico. Ela foi desenhada a partir da observação direta das dificuldades recorrentes no atendimento a pessoas com TEA: sobrecarga sensorial causada pelo barulho e pelo movimento do shopping, dificuldade de permanecer na fila e interrupções durante a coleta biométrica — etapa indispensável para a emissão do documento. Com isolamento acústico, recursos táteis e elementos de conforto visual, o espaço reduz estímulos e torna o processo mais previsível para o usuário.
Na prática, o efeito é mensurável. Atendimentos que antes frequentemente precisavam ser interrompidos e reagendados — ou transferidos para a residência da pessoa — passaram a ser concluídos de forma regular dentro da própria unidade. Para as famílias, isso significa menos deslocamentos, menos espera e, sobretudo, menos desgaste emocional num processo que deveria ser simples: tirar um documento de identidade.
Capacitação de equipe: a mudança que vai além das paredesO investimento de R$ 82 mil não se limitou à reforma física. O projeto incluiu capacitação dos servidores para o atendimento a pessoas com TEA — e é justamente esse componente que especialistas em políticas públicas costumam apontar como o mais difícil de implementar. Adaptar um espaço é uma decisão de gestão. Mudar a cultura institucional exige continuidade, formação e disposição para reconhecer que igualdade de acesso não se resolve com uma única porta para todos.
O resultado já se reflete nos números. Em um Estado onde mais de 13 mil documentos já foram emitidos com algum tipo de identificação de deficiência — sendo o TEA a condição mais frequente —, a experiência do Pátio Central demonstra que estrutura e capacitação combinadas produzem impacto real. A Polícia Científica, historicamente associada à perícia e à investigação, amplia com isso seu papel institucional, atuando também como agente de garantia de direitos.
O que o modelo do Pátio Central aponta para Campo Grande e o interiorPara Campo Grande e para os demais municípios de Mato Grosso do Sul, a experiência levanta uma questão concreta: é possível replicar esse modelo em postos de identificação do interior, onde a demanda é menor, mas as barreiras de acesso para famílias com pessoas com TEA são frequentemente maiores, dada a distância dos centros especializados? A consolidação do Posto Amigo do Autista como referência estadual sugere que sim — e que o custo de implantação, relativamente baixo diante do impacto gerado, justifica a expansão.
O acesso a um documento de identidade é, na essência, o acesso a todos os outros direitos. Para uma criança ou adulto com autismo, ter a CIN com o símbolo do TEA significa mais do que identificação: significa que o Estado reconhece sua condição e que serviços públicos e privados poderão adaptar o atendimento de acordo. Em Mato Grosso do Sul, o posto do Pátio Central está, documento por documento, colocando esse princípio em prática.
Fontes: POLÍCIA CIENTÍFICA DE MATO GROSSO DO SUL, SEJUSP-MS