Ingá, o “feijão-doce”, se espalha por ruas e quintais de Campo Grande

Fruta de polpa branca e adocicada une sombra, alimento e biodiversidade na capital

- Gabriela Porto
26/02/2026 08h38 - Atualizado há 1 semana
Ingá, o “feijão-doce”, se espalha por ruas e quintais de Campo Grande
Ingá, a fruta de polpa branca, adocicada e macia, muito consumida in natura, virou presença constante em MS — Foto: Mirian Machado, g1 MS

Quem caminha por bairros arborizados de Campo Grande já deve ter notado a presença constante de longas vagens verdes pendendo das árvores. Trata-se do ingá, fruta de polpa branca, macia e adocicada, consumida principalmente in natura e cada vez mais comum em calçadas, praças e quintais da capital.

Conhecido popularmente como “feijão-doce”, o fruto ganhou espaço na paisagem urbana não apenas pelo sabor suave e refrescante, mas pela capacidade de adaptação e pelos benefícios ambientais que oferece.

Segundo o pesquisador Felipe das Neves Monteiro, da Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural (Agraer), o sucesso da espécie na cidade está ligado a um conjunto de características agronômicas e ecológicas que favorecem seu cultivo em áreas urbanas.

Uma árvore, várias espécies

O nome ingá é utilizado para designar diferentes espécies do gênero Inga, pertencente à família Fabaceae, grupo de árvores nativas da América Tropical amplamente distribuídas no Brasil.

Entre as mais conhecidas estão o ingá-de-metro (Inga edulis) e o ingá-branco (Inga laurina). Ambas ocorrem naturalmente em biomas como Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica e são historicamente utilizadas tanto para fins alimentares quanto ambientais.

Além da versatilidade, o fruto chama atenção pelo formato incomum: uma vagem alongada que abriga sementes grandes envoltas por polpa branca e fibrosa, a parte comestível. Rica em açúcares naturais, fornece energia rápida e contém fibras e pequenas quantidades de vitaminas e minerais.

Adaptado ao Cerrado

A ampla presença do ingá em Campo Grande também se explica pela adaptação ao clima do Cerrado. As espécies toleram variações de temperatura, solos de fertilidade média a baixa e períodos de estiagem moderada, desde que já estejam estabelecidas.

Outro diferencial está na capacidade de fixação biológica de nitrogênio, característica das leguminosas arbóreas. Esse processo contribui para melhorar a qualidade do solo ao redor, especialmente em áreas urbanas, onde o terreno costuma ser compactado e pobre em matéria orgânica.

A frutificação não segue calendário rígido. No Cerrado, a produção costuma se concentrar no período chuvoso ou logo após o início das chuvas. Em condições adequadas, a árvore começa a produzir entre três e quatro anos após o plantio.

Mais que paisagem

Além de fornecer alimento, o ingá desempenha papel relevante na arborização urbana. A árvore pode atingir médio a grande porte, com copa ampla e densa, oferecendo sombra significativa e contribuindo para a redução da temperatura em ruas e praças.

As flores vistosas e perfumadas atraem abelhas, aves e outros insetos, ampliando a biodiversidade local. A presença de néctar, inclusive fora do período de floração, reforça a função ecológica da espécie.

Para especialistas, o ingá representa um exemplo de como o planejamento urbano pode integrar conservação ambiental, conforto térmico e valorização de hábitos alimentares regionais.

Em Campo Grande, a colheita do fruto diretamente do quintal ou da calçada faz parte da memória afetiva de muitas famílias. A árvore, assim, ultrapassa o paisagismo e se consolida como símbolo de identidade cultural e sustentabilidade.


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