Usinas de etanol de milho já compram 20,9% da safra nacional a partir de MS
Estado tem 3 usinas em operação e uma 4ª em construção; produtor ganha novo comprador e reduz custo de frete, segundo estudo da Aprosoja/MS
Arte/MSConecta
Um levantamento da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja/MS) mostra que o estado se tornou o segundo maior produtor de etanol de milho do país, com 2,128 bilhões de litros estimados para a safra 2025/2026 — o equivalente a 20,9% de toda a produção nacional do biocombustível. O dado ajuda a explicar uma mudança silenciosa, mas profunda, na forma como o produtor sul-mato-grossense vende seu milho: em vez de depender quase só da exportação e das fábricas de ração, ele agora tem um terceiro comprador, instalado dentro de casa.
A guinada começou em 2022, com a entrada em operação da primeira usina de etanol de milho no estado. De lá para cá, o Brasil saltou de 18 plantas do tipo, em 2023, para 29 na safra atual — e Mato Grosso do Sul acompanhou esse ritmo com investimentos que hoje colocam a cadeia do milho em pé de igualdade com setores tradicionais da economia rural.
Três usinas operando e uma quarta em construçãoHoje, três unidades processam milho para etanol em Dourados, Sidrolândia e Maracaju. Uma quarta usina está em implantação em Nova Alvorada do Sul, com um diferencial: vai integrar a produção de etanol de milho à estrutura de uma usina de cana-de-açúcar já existente, unindo duas matérias-primas na mesma planta industrial.
O impacto no emprego já aparece nos números do setor. A obra em Nova Alvorada do Sul deve mobilizar cerca de 2 mil trabalhadores durante a construção, enquanto a usina de Maracaju, já em operação, soma 150 empregos diretos e 600 indiretos. No total, o setor sucroenergético — que reúne usinas de cana e de milho — está presente em 42 municípios de MS e responde por cerca de 33 mil empregos diretos, segundo o estudo da Aprosoja/MS.
Frete mais barato e novos destinos de exportaçãoPara quem planta, o efeito mais imediato é logístico. Como cerca de 80% da produção agrícola sul-mato-grossense ainda depende de rodovias, o frete até os portos consome fatia relevante do valor do milho vendido para exportação. Ter uma usina próxima à lavoura muda essa conta. "A instalação das usinas acrescenta um novo comprador de grande porte dentro do próprio estado, criando uma terceira alternativa de comercialização para o grão. Além disso, a proximidade entre as lavouras e as indústrias pode reduzir a distância percorrida pelo milho e, consequentemente, a exposição aos custos logísticos das operações de longa distância", avalia o analista de Economia da Aprosoja/MS, Linneu Borges Filho.
O processo de moagem seca nas usinas não gera só etanol: também produz DDG (ou DDGS), óleo de milho e CO₂ industrial, usados na alimentação animal, na indústria de alimentos, em biodiesel e até em bebidas. O DDG já virou item de peso na pauta exportadora do estado — em 2025, Mato Grosso do Sul produziu 1,4 milhão de toneladas do subproduto e exportou 1,15 milhão de toneladas para países como Nova Zelândia, Turquia e Vietnã, além de embarcar as primeiras cargas para a China. Reflexo direto dessa verticalização: o milho teve alta de 88,1% no Valor Bruto da Produção agropecuária de MS em 2025, passando a representar 16,8% do VBP estadual, conforme dados do Ministério da Agricultura citados no levantamento.
Na safra 2024/2025, o estado cultivou mais de 2 milhões de hectares de milho, com produção de 13,9 milhões de toneladas — das quais cerca de 2 milhões foram exportadas. Com a nova usina de Nova Alvorada do Sul ainda em obras, a expectativa da Aprosoja/MS é que a fatia absorvida pela indústria dentro do próprio estado continue crescendo nas próximas safras. Para acompanhar de perto como o setor de etanol de milho tem redesenhado o agronegócio regional, o MSConecta já mostrou como as usinas bebem metade do milho de MS em projetos bilionários e como a Unicamp desenvolveu uma levedura que recupera parte do milho perdido no processo de etanol.
Fontes: APROSOJA/MS; AMAMBAI NOTÍCIAS