Paraguai e Bolívia concluem demarcação de fronteira após 88 anos em área ligada a Mato Grosso do Sul

Último trecho termina no ponto onde Brasil, Bolívia e Paraguai se encontram; acordo reforça importância estratégica da região fronteiriça de MS

Por

Paraguai e Bolívia concluíram um processo histórico de demarcação da fronteira comum iniciado há 88 anos, após a Guerra do Chaco. A aprovação do último trecho ocorreu durante a XIII Reunião Plenária Ordinária da Comissão Mixta Demarcadora de Limites, realizada entre 14 e 16 de setembro, em La Paz. A definição tem relação direta com o Brasil porque um dos extremos dessa fronteira está na tríplice fronteira entre Paraguai, Bolívia e território brasileiro, junto à região de Mato Grosso do Sul. 

Mato Grosso do Sul faz fronteira com os dois países

O acordo ganha importância especial para Mato Grosso do Sul, estado brasileiro que possui fronteiras internacionais tanto com o Paraguai quanto com a Bolívia. Corumbá é o único município sul-mato-grossense que faz fronteira com o território boliviano e também possui limite com o Paraguai, condição que coloca a região no centro da integração fronteiriça entre os três países.

A posição de Corumbá é particularmente relevante porque a cidade brasileira está conectada à região boliviana de fronteira, enquanto seu território também alcança áreas limítrofes com o Paraguai. No extremo norte da divisa paraguaio-boliviana está justamente o marco XI, ponto em que se encontram os limites internacionais de Brasil, Bolívia e Paraguai. 

Trabalho começou após a Guerra do Chaco

A atual configuração da fronteira tem origem no período posterior à Guerra do Chaco, conflito travado por Paraguai e Bolívia entre 1932 e 1935.

Em 21 de julho de 1938, os dois países assinaram o Tratado de Paz, Amizade e Limites. O documento determinou que uma comissão mista aplicasse no território a linha estabelecida posteriormente pelo Laudo Arbitral de 10 de outubro daquele ano. Os trabalhos da comissão começaram oficialmente em dezembro de 1938. 

Ao longo das décadas, equipes dos dois países realizaram levantamentos em regiões extensas e de difícil acesso. Os trabalhos envolveram determinação de coordenadas, instalação de marcos fronteiriços e abertura de caminhos para identificação física da divisa. 

Último trecho fica no Pantanal

O último segmento representava um desafio adicional por envolver uma fronteira natural formada pelo Rio Negro ou Otuquis, em área relacionada ao sistema do Pantanal.

Para determinar esse trecho, foram realizados estudos hidrográficos e batimétricos. Segundo a chancelaria boliviana, a definição utilizou o método do talvegue, que toma como referência a linha de maior profundidade do canal fluvial para estabelecer o limite. 

A conclusão desse ponto é especialmente significativa para Mato Grosso do Sul porque o marco XI está justamente no trifínio com o Brasil, na confluência relacionada ao Rio Paraguai, curso d'água essencial para a geografia, economia e integração fronteiriça da região pantaneira. 

Fronteira reforça posição estratégica de MS

A conclusão da demarcação acontece em um momento de crescente integração entre os países da região. Mato Grosso do Sul já exerce papel importante nas relações comerciais e sociais com Paraguai e Bolívia e deverá ganhar ainda mais relevância com novos corredores internacionais.

Um dos principais projetos é a Rota Bioceânica, que terá Porto Murtinho como porta brasileira para uma ligação rodoviária pelo Paraguai e pela Argentina até os portos do Chile no Oceano Pacífico. O corredor é projetado como uma alternativa para aproximar a produção do Centro-Oeste dos mercados asiáticos. 

Nesse novo cenário, Corumbá e Porto Murtinho ocupam posições distintas, mas estratégicas. Corumbá está diretamente inserida na fronteira Brasil-Bolívia e também possui limite com o Paraguai, enquanto Porto Murtinho será um dos principais pontos brasileiros da Rota Bioceânica, conectado a Carmelo Peralta por meio da nova ponte internacional sobre o Rio Paraguai. 

A demarcação concluída por Paraguai e Bolívia, portanto, vai além de uma questão cartográfica entre dois países vizinhos. O último ponto dessa fronteira chega justamente ao encontro com o Brasil, junto a uma região diretamente ligada a Mato Grosso do Sul, reforçando a posição do estado como uma das principais áreas de integração entre as economias do centro da América do Sul.


Notícias Relacionadas »