MS tem quase 2 milhões de hectares de eucalipto para etanol de milho
Área florestal ligada à celulose vira trunfo para novas usinas, mas Aprosoja/MS alerta que oferta de madeira não é ilimitada
Bunks/Wikimedia Commons (CC BY)
Mato Grosso do Sul chega à corrida do etanol de milho com uma vantagem que nenhum outro polo produtor tem à mesma escala: 1,985 milhão de hectares de eucalipto plantado na safra 2025/2026, segundo levantamento do projeto SIGA-MS usado pela Aprosoja/MS. Essa floresta, erguida ao longo de mais de dez anos para abastecer as fábricas de celulose de Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo, agora é disputada por um setor que não existia nessa escala até pouco tempo atrás: as usinas de etanol de milho, que precisam de biomassa para queimar nas caldeiras e não contam com o bagaço que sobra da cana.
A diferença entre as duas indústrias explica por que o tema virou pauta técnica. Usinas de cana geram sua própria energia com o resíduo da moagem. Já as plantas de etanol de milho dependem de fonte externa, geralmente cavaco e resíduo de madeira de eucalipto, para acender a caldeira. Quanto mais usinas de milho entram em operação no Centro-Oeste, maior fica a procura por esse insumo florestal, e Mato Grosso do Sul entra nessa conta com um estoque de madeira que Mato Grosso, o maior polo do setor, ainda não tem.
Por que o volume de floresta não garante o abastecimentoO analista de Economia da Aprosoja/MS, Raphael Gimenes, defende que ter uma das maiores áreas de eucalipto do país não resolve sozinho a equação das novas usinas. "O crescimento da indústria de etanol de milho amplia a demanda por biomassa e cria uma nova variável econômica para o setor. Não basta olhar apenas para a quantidade de madeira disponível no Estado. É preciso avaliar onde essa madeira está, qual é o seu custo de produção e transporte e quanto desse estoque poderá efetivamente ser destinado à geração de energia", afirma.
O transporte é o ponto que mais pesa nessa conta. A distância entre o talhão de eucalipto e a usina de etanol define se o negócio fecha na planilha. Uma fábrica instalada longe da região florestal de Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo pode ter madeira disponível no Estado, mas inviável no frete, o que territorializa a disputa pelo insumo dentro do próprio Mato Grosso do Sul.
O que o exemplo de Mato Grosso revela sobre o riscoUm estudo da Consultoria Agro do Itaú BBA, citado pela Aprosoja/MS, projeta que a capacidade instalada de etanol de milho no Brasil pode saltar de 10,9 bilhões de litros em 2025 para 25,3 bilhões de litros em 2030. Em Mato Grosso, hoje o maior produtor do país, a estimativa é de crescimento de 6,9 bilhões para 11,9 bilhões de litros no mesmo intervalo, e o banco calcula que o estado vizinho precisaria de cerca de 383 mil hectares de eucalipto para sustentar essa demanda energética, contra os 165 mil hectares que possui atualmente, um déficit projetado de 218 mil hectares.
É esse cenário que serve de alerta para Mato Grosso do Sul: mesmo com quase 2 milhões de hectares de eucalipto, um volume muito superior ao vizinho, Gimenes pondera que "Mato Grosso do Sul possui uma estrutura florestal que reduz o desafio inicial de abastecimento, mas isso não significa que a oferta seja ilimitada. A expansão das usinas pode aumentar a competição pela biomassa e, principalmente, alterar o preço do insumo em determinadas regiões". A cadeia florestal que já opera no entorno de Três Lagoas, com viveiros, colheita e logística estruturados para a celulose, dá ao Estado um ponto de partida melhor, mas não isenta o setor de repetir, em escala menor, a disputa por madeira que hoje pressiona Mato Grosso.
O MSConecta já acompanha essa disputa entre etanol de milho e eucalipto: uma reportagem recente mostrou como o Estado virou o 2º maior produtor de etanol de milho do país e passou a disputar grão com a pecuária, movimento que agora se estende também à demanda por biomassa florestal.
Fontes: APROSOJA/MS; ITAÚ BBA; TANAMIDIANAVIRAI