MS soma cidades entre as 399 sob alerta federal para incêndios do El Niño

Governo federal destina R$ 337 milhões à prevenção no Centro-Oeste; Pantanal e Cerrado de MS estão na rota mais crítica do fenômeno

Por

Foto: Filipefrazao / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

O governo federal colocou 399 municípios do Centro-Oeste sob monitoramento especial para o risco de incêndios florestais nos próximos meses, período em que o El Niño deve intensificar a seca na região. Do total mapeado, 23 cidades estão em alerta vermelho, 154 em laranja e 222 em amarelo, segundo levantamento divulgado nesta semana e repercutido pelo Canal Rural.

Mato Grosso do Sul concentra dois dos biomas mais sensíveis ao avanço do fogo nesta época do ano: o Pantanal e o Cerrado. A combinação de vegetação seca, baixa umidade e calor prolongado é justamente o cenário que historicamente antecede os piores episódios de queimadas registrados no estado, e é essa mesma janela climática que volta a preocupar autoridades e produtores rurais neste fim de setembro.

Cerrado e Pantanal entram na fase de maior risco

Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e membro da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, avalia que as próximas semanas marcam a virada para o período mais perigoso do ano. "O país entra agora no período em que o risco de grandes incêndios se intensifica, sobretudo no Cerrado e na Amazônia, em razão da fase de seca, característica dos próximos meses", afirma a pesquisadora.

Setembro e outubro aparecem como os meses de maior atenção para os efeitos do El Niño no Centro-Oeste. É exatamente o intervalo em que o Pantanal sul-mato-grossense costuma registrar os piores focos de calor do ano, alimentados pela vegetação ressecada e por queimadas de origem humana que escapam do controle.

Recursos federais e o papel do produtor rural

Para tentar reduzir os estragos, o plano federal de prevenção reserva R$ 337 milhões para ações de prevenção e combate aos incêndios florestais. Outros R$ 527 milhões, vindos do Fundo Amazônia, vão para a compra de equipamentos dos Corpos de Bombeiros dos estados do Norte e do Centro-Oeste, o que inclui Mato Grosso do Sul.

Alencar pondera que o dinheiro ajuda, mas não resolve sozinho. "Em 2025, a estação chuvosa foi mais prolongada, o que reduziu a janela favorável para incêndios", explica. Para 2026, o teste será saber se a estrutura montada nos últimos anos aguenta um cenário meteorológico mais seco e mais longo.

Como grande parte dos incêndios começa por ação humana, a recomendação recai diretamente sobre quem trabalha na propriedade rural: manter aceiros bem cuidados, respeitar os períodos de proibição do uso do fogo e verificar as condições do tempo antes de qualquer atividade que possa gerar faísca. "Isso significa planejar cuidadosamente qualquer uso autorizado do fogo, respeitar períodos de proibição, manter aceiros e infraestrutura adequada, acompanhar as condições meteorológicas antes de qualquer operação de risco, proteger nascentes, matas ciliares e reservas legais e cuidar para que áreas especialmente vulneráveis fiquem longe de fontes de ignição", resume a pesquisadora. Para quem já enfrentou geada e agora se prepara para o calor extremo, o alerta chega como lembrete de que o risco no campo muda de forma, mas não dá trégua ao longo do ano, como mostrou o alerta de geada que atingiu mais de 160 municípios poucos meses atrás. A intensificação do El Niño também já havia sido tema de debate entre governo federal e autoridades de MS, como mostrou o encontro em Campo Grande sobre risco de seca e incêndios.

Fontes: IPAM; GOVERNO FEDERAL; CANAL RURAL