Indígena traduz guarani na Polícia Científica de Amambai

Marlene Ortiz atua desde 2024 em exames, emissão de documentos e atendimentos a famílias indígenas em cinco cidades do Cone Sul de MS

Por

Divulgação/AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DO GOVERNO DE MATO GROSSO DO SUL

Uma indígena da etnia Guarani Kaiowá virou peça-chave para que moradores de aldeias consigam se comunicar com a Polícia Científica de Amambai. Marlene Ortiz, pedagoga e técnica de enfermagem que nasceu e ainda mora em uma aldeia do município, trabalha desde 2024 na Unidade Regional de Perícia e Identificação (URPI) da cidade, por meio de parceria com a prefeitura, auxiliando em exames médico-legais, orientações sobre testes de DNA e emissão de documentos.

O trabalho de Marlene ganha peso diante de um dado do Censo 2022 do IBGE: Amambai tem 9.988 habitantes indígenas, o que representa 25,4% da população do município e coloca a cidade como o terceiro maior contingente indígena entre os municípios de Mato Grosso do Sul. Desde 2024, o guarani kaiowá é língua cooficial em Amambai, reconhecida pela Lei Municipal nº 2.905.

Leia também

Confiança que atravessa o idioma

Na unidade da Polícia Científica, a presença de uma profissional indígena muda a forma como as famílias se relacionam com o atendimento. "Quando chegam aqui e encontram uma pessoa indígena, elas confiam mais. Conversam, tiram dúvidas e falam comigo. Eu ajudo nos exames e também no atendimento do RG, porque muitos indígenas têm dificuldade quando chegam ao serviço", contou Marlene.

A comunicação funciona nos dois sentidos: indígenas recorrem a ela para entender os procedimentos, e servidores da própria unidade a procuram quando precisam traduzir informações recebidas em guarani, inclusive em atendimentos realizados fora da sede. O suporte também chega ao Núcleo Regional de Identificação, onde moradores de aldeias buscam orientação para tirar a Carteira de Identidade Nacional.

Do desenho ao exame, e o apoio em momentos de luto

Com crianças assustadas, Marlene aposta em estratégias que não dependem de palavras. Em um atendimento, uma criança se recusava a interagir até que ela se sentasse ao lado dela e começasse a desenhar uma gatinha em uma folha de papel. A menina respondeu desenhando também e, pouco depois, aceitou seguir para o exame. "Quando a criança chega muito irritada, ela brinca e vai se acalmando. Depois dá para chamar para fazer o exame", descreveu.

A experiência vem de antes da Polícia Científica: Marlene já atendia crianças, mulheres, gestantes e idosos dentro da própria comunidade indígena, bagagem que soma à formação em Pedagogia e Enfermagem. Em casos de violência, sua função se limita ao acolhimento e à tradução, enquanto os exames técnico-científicos seguem sob responsabilidade exclusiva dos peritos. Em situações de luto, quando famílias chegam à unidade após a morte de um parente, ela também ajuda a repassar informações sobre os procedimentos. "Se o meu povo indígena chega, já me procura. Talvez eu não esteja aqui, mas me chamam para conversar", disse.

O alcance do trabalho de Marlene vai além de Amambai: a URPI também responde por demandas de Coronel Sapucaia, Paranhos, Sete Quedas e Tacuru, outros municípios do Cone Sul de Mato Grosso do Sul com forte presença indígena. "Me colocaram aqui para ajudar a minha comunidade, mas também ajudo qualquer pessoa que precise. Eu gosto de ajudar. Se precisar, estou aqui", afirmou.

A situação na fronteira do Cone Sul reforça outro ponto de tensão social da região: conflitos fundiários envolvendo comunidades indígenas, como o episódio registrado em retomada de terra guarani kaiowá em Amambai, mostram como a presença indígena na região exige estruturas de atendimento adaptadas à realidade local.

Mais notícias de Amambai

Adicione o MSConecta como fonte preferida no Google

Fontes: IBGE