Entidade quer trocar livro didático do agro a cada 4 anos, não mais

De Olho no Material Escolar propõe atualização mais rápida do PNLD; entenda o que isso pode significar para o ensino agrícola em MS

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Snufkin/stocksnap (domínio público)

Uma associação ligada ao setor produtivo, a De Olho no Material Escolar, quer colocar na mesa do próximo governo federal uma revisão do jeito como o agronegócio é ensinado nas escolas brasileiras. A entidade defende que o conteúdo sobre o campo nos livros didáticos precisa ser atualizado com mais frequência do que os atuais quatro anos do ciclo do Plano Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), além de propor a criação de canais permanentes para que professores, sociedade civil e setores produtivos participem da revisão desse material.

A cobrança chega em um momento sensível para a educação brasileira: o Ideb 2025, divulgado em agosto de 2026, e o mais recente Pisa 2025 mostraram que o país não avança no ritmo necessário em disciplinas como matemática, português e ciências — inclusive na comparação com outros países. Para quem lida com o ensino técnico e agrícola em Mato Grosso do Sul, estado que forma boa parte da mão de obra que sustenta a pecuária e a lavoura de soja e milho da região, a discussão tem peso direto: se o material didático não acompanha a tecnologia do campo, o aluno sul-mato-grossense que vai para uma escola técnica ou universidade com viés agro pode chegar defasado em relação ao que já se pratica nas fazendas do próprio estado.

Por que o ciclo de quatro anos incomoda o setor

A presidente da entidade, Letícia Jacintho, argumenta que o intervalo entre uma edição e outra do PNLD é longo demais para acompanhar a velocidade das mudanças no campo. "Diante da velocidade da inteligência artificial, das novas tecnologias aplicadas ao campo e da evolução da agricultura tropical, esperar quatro anos significa condenar o aluno a aprender sobre um país que já não existe", afirma Letícia. O ciclo vigente do PNLD para o ensino médio, por exemplo, vale de 2026 a 2029 — período em que, segundo a entidade, tecnologias como sensoriamento remoto, agricultura de precisão e novas variedades de sementes já podem ter avançado sem que os livros usados em sala de aula reflitam essas mudanças.

Hoje, a avaliação pedagógica dos materiais é feita pela Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação, que mantém um banco de avaliadores e já prevê, entre os critérios oficiais, a "correção e atualização de conceitos, informações e procedimentos". A proposta da associação não nasce, portanto, de um vácuo de fiscalização — o pedido é para ampliar a participação de quem vive o dia a dia da produção rural nesse processo, e não criar um sistema do zero.

Estudo com a Unesp deve mapear erros nos livros

Para sustentar o pedido com dados, a De Olho no Material Escolar desenvolve, em parceria com a Unesp, um levantamento que busca identificar defasagens e incorreções sobre o agronegócio nos materiais didáticos usados atualmente nas escolas brasileiras. A ideia, segundo Letícia, é usar esse diagnóstico para negociar mudanças com o governo federal, editoras e gestores escolares — sem que a discussão vire disputa ideológica sobre qual visão do agro deve prevalecer, mas sim um debate ancorado em evidência científica.

A entidade também defende que a melhoria do ensino seja tratada como política de Estado, indo além da pauta específica do agronegócio. "O Brasil possui um dos maiores ecossistemas educacionais do mundo, mas peca na execução das políticas públicas e na governança", diz Letícia. Para o setor produtivo de Mato Grosso do Sul, estado que combina forte presença do agronegócio com uma rede de escolas técnicas e cursos superiores voltados à cadeia rural, o desfecho dessa articulação em Brasília pode determinar se o conteúdo que chega às salas de aula reflete — ou não — o que já acontece nas lavouras e nas fazendas do estado.

Fontes: DE OLHO NO MATERIAL ESCOLAR; NOTÍCIAS AGRÍCOLAS