Sob pressão, setor de moda reage para poluir menos

No Brasil, alguns fabricantes e varejistas têm pautado ações ESG em suas estratégias

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Por redação

O setor têxtil vem sendo cada vez mais pressionado, por consumidores e investidores, para diminuir o uso de recursos naturais, poluir menos e fazer uma gestão mais eficiente de resíduos. No Brasil, há exemplos de fabricantes e varejistas que estão reagindo à essa pressão.

Antes da pandemia, em 2019, foram descartadas 170 mil toneladas de resíduos têxteis de maneira inadequada em aterros sanitários no país, segundo estima a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit). A produção no ano seguinte chegou a 8 bilhões de peças de vestuário e acessórios.

A melhoria do processo de produção é crucial para a redução de água, energia e insumos, alerta Victoria Santos, coordenadora de Inteligência Competitiva do Centro de Tecnologia da Indústria Química e Têxtil (Senai CETIQT). “Os desafios são grandes de maneira global, mas no Brasil é mais desafiador porque temos dados confiáveis somente em algumas etapas”, completa.

A urgência do cenário tem levado empresas, principalmente grandes grupos, a adotarem melhores práticas. A Lupo é um exemplo. A empresa já atua em sustentabilidade há um tempo, mas vem traçando metas mais audaciosas, em especial, na frente ambiental. Entre as diversas iniciativas, estão a reutilização de água e processos de tingimento com maior eficiência. Para isso, investiu nos últimos anos em máquinas e tecnologias que ajudam a reduzir o consumo de água durante a produção. Agora, a marca vem mudando as embalagens de seus produtos, o que já resultou em uma redução de 90% de papel.

“A redução de papel nas embalagens era algo que nós já estávamos estudando, e o resultado foi muito positivo pois também agregou na redução de resíduos sólidos”, diz Liliana Aufiero, diretora-presidente da Lupo. Ela conta que a nova embalagem facilitou para o cliente ver o produto e a cor, sem ter de abrir o pacote. A mudança começou com a linha de cuecas sem costura e se estendeu aos produtos da marca Lupo Sport. Em breve, chega às demais linhas de produtos da empresa.

A Malwee está focando em produtos sustentáveis. Segundo Guilherme Weege, CEO do Grupo Malwee, é considerada assim aquela peça de roupa que tem, no mínimo, 30% de matérias-primas menos poluentes ou recicladas em sua composição e/ou uma redução de 50% do impacto ambiental (desperdícios e uso de água e energia) do processo. Desde então, pelo menos 92% das peças possuem processos sustentáveis, sendo o jeans o principal case. A empresa reduziu em até 98% o uso de água na confecção do jeans e zerou o uso de produtos químicos nocivos.

Este ano, lançou o movimento DES.A.FIO com o primeiro moletom feito a partir do “Fio do Futuro”, produzido com roupas usadas que seriam descartadas, parceria com o grupo Eurofios e a Cruz. “Atualmente, 75% dos materiais descartados são destinados para reciclagem e/ou reuso. Já tivemos reduções muito expressivas na melhoria na geração de resíduos internos no último ciclo (2015-2020); no entanto, ainda temos a meta de promover até 2030, a reciclagem e a logística reversa em toda a cadeia de valor”, observa Weege.

A empresa tem um programa de homologação e avaliação de performance de fornecedores que inclui a coleta de dados sobre temas como emissão de gases de efeito estufa, utilização de água e de recursos materiais. Além disso, os fornecedores de menor porte de costura são atendidos por um programa de coleta para fazer a destinação correta dos materiais.

Outra empresa que se comprometeu com metas sustentáveis foi a The Lycra Company. Até 2030, a empresa quer reduzir 40% dos resíduos produzidos nas fábricas, 10% da pegada hídrica e tratar 100% dos resíduos sólidos. Até 2023, todos os produtos terão pelo menos um atributo sustentável.

Uma das principais apostas para atingir a estratégia sustentável é a nova geração do fio LYCRA® bioderivado. Recentemente a empresa firmou um acordo com a Qore® para primeira produção comercial em grande escala de elastano de base biológica, tendo como um de seus principais ingredientes a QIRA®, nova geração de 1,4-butanodiol (BDO).

A expectativa é que o novo produto reduza em até 44% as emissões de CO2 em comparação ao material utilizado por recursos baseados em combustível fóssil. O primeiro fio LYCRA® renovável feito com QIRA® será produzido em Singapura, a partir de 2024.

A empresa já usa hoje a tecnologia Lycra® EcoMade, fabricado com 20% de material reciclado pré-consumo e que é certificado pela Global Recycled Standard (GRS), responsável pela verificação e rastreio do material reciclado.

Grandes marcas do varejo apostam em ações ESG

No varejo, C&A, Riachuelo e Farm são algumas das grandes que têm pautado ações ESG em suas estratégias. Na Farm, por exemplo, 5% da coleção de verão de 2023 são de roupas jeans feitas com menor liberação de carbono e microplásticos, e que passa por lavagens com insumos biodegradáveis em locais com certificação.

Desde 2019, cerca 162 mil peças jeans foram produzidas, usando 133 mil kWh de energia elétrica a menos do que em processos comuns, além de ter 100% do algodão empregado com certificado ABR (Algodão Brasileiro Responsável). Os produtos integram a linha re- Farm, um projeto de upcycling (reutilização) iniciado em 2015.

De acordo com Diego Francisco, líder de marketing da Farm, antes da re-Farm, as peças excedentes ficavam paradas em estoque e as sobras de tecidos destinadas a aterros sanitários. O projeto de circularidade ganhou corpo com parcerias com artesãos, negócios sociais e consultorias de sustentabilidade.

De 2017 até 2021, foram oito coleções upcycling e 112 produtos diferentes. A meta para 2023 é expandir o percentual de matéria-prima responsável nas coleções e, até 2025, aumentar em 20% o número de peças que têm seu ciclo de vida alongado. A empresa estuda ainda compensação de emissões de gases de efeito estufa.

Marcas com menos tempo de mercado também veem na sustentabilidade um diferencial. Na Yes I am Jeans a maioria das roupas é de tecidos compostos por fios de algodão reciclado, que economizam até 95% de água durante a fabricação e não passam pelo processo de purga (procedimento que elimina as impurezas do algodão), valorizando seu aspecto natural, explicam as sócias Raquel Ferraz e Fernanda Veríssimo.


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