Lindolfo Martin: Fundador da Multicoisas conta sua trajetória de sucesso

Fundador da primeira rede de franquias de Mato Grosso do Sul conta sua trajetória e como suas marcas chegaram a todo o Brasil

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Por Ogg Ibrahim

Ele construiu, aqui na Capital Morena, um império e hoje comanda uma das maiores franquias nacionais, referência no segmento de lojas de utilidades para casa, escritório e construção. Nas unidades espalhadas pelo Brasil, são mais de 4 mil itens nas prateleiras que atendem a todo tipo de necessidade: de organização do lar a reparos em elétrica e hidráulica, de pregos a produtos de informática. Quase não há o que não se encontre na Multicoisas.

O empresário Lindolfo Martin, 68 anos, fundador da empresa e hoje membro do conselho administrativo do grupo, é gaúcho de Santa Cruz do Sul (RS), mas cresceu em Maringá (PR), onde a família tinha comércio. Depois de alguns conflitos de ideias na empresa dos pais, e já casado com Elza, com quem vive até hoje, resolveu vir para Campo Grande em 1978, atraído pelas oportunidades do recém-criado estado de Mato Grosso do Sul.

A prática atrás dos balcões da loja de ferragens do pai o levou a enveredar pelo mesmo segmento e assim nasceu a Multicasa, empresa de materiais de construção, ferramentas e materiais elétricos e hidráulicos. Durante a experiência no varejo de construção, Lindolfo observou a demanda dos clientes por itens para manutenção da casa. Então, em 1984, decidiu fundar ao lado de Elza a Multicoisas, focada no atendimento de pequenos reparos do dia a dia, já no formato de autosserviço e com microcomputadores CP-500 agilizando o atendimento.

Seis anos depois, o casal viu a oportunidade de expandir o negócio por meio de franquias e, assim, a Multicoisas acabou se transformando numa das maiores empresas do país, com mais de 200 lojas. O negócio já foi premiado várias vezes pela atuação no segmento, ganhando, ao longo dos anos, o reconhecimento de melhor franquia do Brasil tanto pela Associação Brasileira de Franquias (ABF) como pela revista Pequena Empresas Grandes Negócios.

Em 2021, Lindolfo deixou o cargo de CEO da Multicoisas para se dedicar ao crescimento pessoal. Com mais tempo na agenda, ele está cursando uma pós-graduação em Neurociência, Psicologia Positiva e Mindfullness, na PUC do Paraná. Também faz mentoria junto a instituição de inovação StartSe e outra mentoria junto a Open Leaders, sempre trabalhando com o tripé: colaboração, geração de valor e transparência.

Conheço Lindolfo, praticamente, quase desde o início do nascimento da Multicoisas. Fizemos algumas aventuras de moto pelo Pantanal, dormindo em barracas na beira de corixos. Também participei de algumas produções em vídeo para a empresa e hoje, de vez em quando, conseguimos dar umas pedaladas por aí. Desde o início dessa amizade, ele nunca perdeu a sua simplicidade, generosidade e simpatia. A forma como Lindolfo conta sua história de crescimento nos negócios, com paixão e olhar sobre o ser humano (seus colaboradores), nos magnetiza e nos faz entender porque ele chegou tão longe.

Ogg Ibrahim: Lindolfo, explica melhor essa sua nova fase.

cei a fazer pós-graduação para ter uma visão mais holística de empreender. Com isso, passei a entender que o que vale são coisas intangíveis, como capital humano, tecnologia e marca. Aprendi que os erros devem ser aceitos como parte do crescimento, por isso não devem ser punidos, e que o aprendizado é mais importante do que o capital, pois este acaba, já o conhecimento não.

OI: Qual a diferença entre a Multicasa e a Multicoisas?

LM: A Multicasa nasceu primeiro para atender ao público da construção civil e até hoje é uma loja voltada para o fornecimento de materiais diversos para o setor. Já a Multicoisas é a loja das miudezas, para o consumidor comum, aquele que não quer comprar um rolo de fio com 100m, só precisa de 1, 2 ou 3m de fio. É o que compra coisas para pequenos reparos em casa. Inclusive o conceito do “multi” veio de um desenho dos anos 70 que eu gostava muito: “Os Impossíveis”, que tinha o Coil, o Homem Mola, o Homem Fluido e o Multihomem, que se multiplicava. Adotei o conceito de oferecer “múltiplas” opções ao consumidor.

OI: Em 1984, esse conceito multi era inovador para a época, principalmente em Campo Grande. O que fez dar certo?

LM: Eu brinco muito que a Multicoisas é como o comercial do Posto Ipiranga, aquele que diz: “tem lá no Posto Ipiranga”. Na Multicoisas é a mesma coisa: “passa lá que tem”. Vender coisas simples do dia a dia, que resolvem os problemas dos consumidores, sempre foi o nosso forte.

OI: O sistema de franquias começou apenas 6 anos depois do início da Multicoisas. Não foi um tempo muito curto para iniciar esse processo?

LM: A minha motivação para abrir franquias foi a possibilidade de criar uma empresa com as minhas ideias e os meus valores, valorizando o conhecimento e, principalmente, as pessoas. Uma oportunidade de ajudar a construir sonhos. A franquia originou da dor da expansão, de dividir os recursos humanos e financeiros, já que, quando se abre uma filial para expandir, é preciso dividir o que se tem em mãos (capital e equipe) entre os lugares. Então pensei: “Se eu encontrar gente que acredite no meu conceito e esteja disposta a investir, eu empresto a tecnologia, dou conhecimento e formato e vamos trabalhar juntos”. E deu certo!

OI: A Multicoisas se expandiu rapidamente pelo país. O que foi essencial?

LM: Criamos a Universidade Multicoisas para formar as pessoas, colaboradores, manter um padrão e uma identidade única. Todas as lojas parecem ser de um mesmo dono, tem a mesma cara e conceito. Essa foi a receita.

OI: Houve muitos cancelamentos de contrato até hoje?

LM: Os contratos de franquia são renovados a cada 5 anos. Os primeiros franqueados estão conosco até hoje, mas existe a possibilidade de alguns desistirem no meio do caminho. De qualquer forma, o setor tem uma mortalidade muito menor do que os negócios normais. Quando me perguntam qual o retorno sobre o investimento, eu sempre digo: “De 3 a 5 anos ou nunca!”. Lógico que há riscos, como qualquer outro negócio, mas nosso grau de mortalidade está muito bem pontuado dentro do sistema de franquias. Estamos bem consolidados.

OI: Quais foram os principais obstáculos que você enfrentou?

LM: Os planos econômicos sempre nos deram grandes sustos. Pegamos todos que surgiram de lá pra cá, inclusive o Plano Collor, que foi o pior deles. Na época, eu estava abrindo uma loja em São Paulo, próximo ao aeroporto de Congonhas, e o arquiteto me disse: “Você vai desistir né?”. Eu falei: “Não! Vou fazer o que eu posso, não o que eu desejaria fazer”, continuei e deu certo. Sempre que surgem problemas, enfrentamos de forma positiva.

OI: Quando veio a pandemia, você ainda não tinha implementado o sistema de e-commerce. Como foi ter que dar essa guinada rapidamente?

LM: Das nossas mais de 200 lojas, 50% estão em shoppings, que foram amplamente afetados pelas restrições. Fizemos parcerias com os nossos franqueados para não deixá-los na mão e nos conectamos com plataformas de entregas. Algumas lojas fizeram uso das plataformas, outras não quiseram, mas quem usou amenizou o problema. Hoje estamos implantando um sistema para desfrutar de maneira mais eficiente das compras on-line. Precisamos construir um convívio harmônico do e-commerce com as lojas físicas, porque o frete da entrega impacta muito no preço das mercadorias e os nossos produtos são de baixo ticket e de muita conveniência.

OI: Você diz que o grupo busca uma transformação cultural muito antes da digital. O que você quer dizer com isso?

LM: É um trabalho profundo o que estamos fazendo. O nosso negócio não é nativamente digital, é físico, incorporando o digital. Por outro lado, existem muitas empresas que nasceram virtuais, B2C (Business to Consumer), e que precisam de uma porta de entrada para o mundo físico. A ideia é transformar a Multicoisas nessa porta. Mas não posso revelar detalhes, que ainda estão sendo estruturados.

OI: O que a pessoa física do Lindolfo está fazendo para agregar valor à pessoa jurídica construída pelo Lindolfo?

LM: Eu estou fazendo uma pós em Neurociência, Psicologia Positiva e Mindfullness, na PUC do Paraná, que vai durar mais de um ano. Também faço um curso de mentoria junto a StartSe, e outra mentoria da Open Leaders, que pensa muito nesse mundo disruptivo baseado na empresa holística, todos agindo colaborativamente na geração de valor para o sistema e para a humanidade. A PF e a PJ estão na mesma entidade. É como a alma e o corpo, não podem ser dissociadas. Se não há felicidade e propósito, não há colaboração. Então queremos uma organização em que as pessoas saiam do trabalho para casa sabendo que são importantes e que atuam em um ambiente saudável e harmônico. Almejamos criar ambientes de trabalho onde as pessoas sejam acolhidas e se sintam bem.

OI: Você foi piloto de motos. A competitividade no esporte lhe ajudou na vida profissional?

LM: Muito, especialmente porque aprendi que não se ganha uma corrida sozinho. Uma vez eu vi um documentário sobre o Schumacher que mostra o quanto a equipe foi essencial nas vitórias dele, quando entrou na Ferrari e não tinha um carro competitivo. Sem equipe não se vence a corrida. A experiência nas pistas me fez perceber que é preciso ter equipamento bom e equipe boa, além de ser bom e estar preparado, fisicamente e psicologicamente. Aprendi também que cair faz parte do jogo. Em uma corrida, cai duas vezes e ainda consegui ganhar a competição. Tudo isso serve de experiência para a vida profissional e nos negócios.

OI: Você o alcançou, mas o que é o sucesso pra você?

LM: O sucesso faz as pessoas sofrerem muito porque, geralmente, elas se inspiram em modelos que não estão nas forças do seu próprio caráter, na força de suas características. O sucesso não é uma chegada, é uma jornada e não adianta traduzir esse caminho apenas calcado em questões financeiras, de aparência. Precisa estar calcado numa riqueza muito maior que é a gratidão à saúde, à família e aos próprios valores. Isso pra mim é o mais importante.

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