Por Ana Laura Menegat
A LiaMarinha é filha do rompimento da barragem de Fundão, na cidade de Mariana, em Minas Gerais, ocorrido em 2015. A empresa nasceu em 2017, a partir da vontade de William Pessoa, engenheiro civil e marianense, de pensar a mineração de forma sustentável, criando empregos e prezando pela limpeza da água. A iniciativa está em negociação para trabalhar com uma hidrelétrica no Mato Grosso do Sul.
A família de William vem da mineração a gerações, sendo que ele próprio já trabalhou com isso. No dia do rompimento da barragem, o pai de William estava na mineradora. “Na hora que aconteceu, já me ligaram: olha, a barragem de Mariana estourou. A primeira coisa foi ligar para o meu pai, ele falou ‘primeiro a gente sentiu o tremor e depois aconteceu’. Eu trabalhei lá também, vi o que era a mineração e vi o potencial desse mercado. É algo muito grande, então quando você vê aquela estrutura se romper, aquilo é muito marcante”.
A LIAMARINHA E O CUIDADO COM A VIDA
Durante a graduação, William teve a oportunidade de viajar para a Croácia, onde trabalhou com projetos na área de saneamento e hidráulica com soluções baseadas na natureza. Ao retornar para o Brasil, juntou uma equipe multidisciplinar para idealizar a LiaMarinha e atuar na recuperação da região afetada pelos detritos da barragem. “É uma empresa com o propósito de melhorar a qualidade da água, de forma ecológica e sustentável visando ter essa melhoria, mas também entendendo que em torno de grandes empreendimentos, têm famílias, têm comunidades, de forma que a gente pudesse integrar esse desenvolvimento sustentável junto às indústrias, que trazem um papel econômico, mas também dar uma segurança hídrica para aquelas comunidades”.
Por enxergar o potencial da mineração para uma região, gerando emprego e movimentando a economia das comunidades inseridas nas regiões ricas de minérios, a LiaMarinha busca aproveitar esses recursos sem prejudicar o meio ambiente e a vida humana. “A gente acredita que a mineração pode ser sustentável, e quando a gente sente essa dor interna, de ver a sua comunidade que é dependente da mineração. Porque é um estado rico em recursos minerais, e se explorado de forma sustentável, isso traz benefícios para aquela comunidade”, defende William.
O engenheiro acredita que esses recursos naturais podem ser preservados e a qualidade de vida da população ser impactada positivamente por essa forma de atuação. Porém, para isso, ele destaca que inovação e tecnologia são os pontos chaves para isso e que ainda faltam muitos recursos nesse sentido. Por isso, a LiaMarinha busca integrar grandes empresas com universidades. “A gente foca nas grandes empresas porque elas têm recursos financeiros e demandas internacionais para cumprir, de desenvolvimento sustentável. Buscando melhorar o seu processo, ela vai gerar um benefício que vai ser bem visto para um acionista que tá fora do país, para uma organização internacional que vai olhar por ela. Então vai gerar um benefício, para a comunidade, para a organização e para o nosso país”, explica William.
Além disso, ele enxerga que a população dessas comunidades também sente a necessidade de um desenvolvimento mais sustentável e comprometido com as pessoas que habitam nesses locais e que já estão inseridas na mineração de uma forma ou de outra. “Além disso, essa população precisa de emprego e não quer o seu território desestruturado, então ela busca que a organização que está atuando ali traga benefícios, é o mínimo”.
TECNOLOGIA
Apesar do foco da LiaMarinha ser nas áreas de minas, também apresentam soluções para agroindústrias e em relação ao saneamento. A atuação da startup é pautada na economia circular, integrando a agroindústria com a mineração. “Muitas empresas que trabalham com agroindústrias que possuem resíduos que vão ser descartados, podem ser descartados de forma correta ou não. A gente percebeu que esse resíduo pode ser reaproveitado, então estamos pegando esse resíduo da agroindústria ou do produtor rural para tratar a água ácida da mineração, por exemplo”, explica William.
A negociação que a empresa busca fechar com a hidrelétrica no Mato Grosso do Sul atuará aproveitando as algas que se prendem nos mecanismos hidráulicos. Essas algas colaboram para a segurança hídrica da região. “A gente usa plantas, para fazer uma competição com outras plantas, para reduzir essa carga orgânica dos nutrientes”, afirma William.
A tecnologia da LiaMarinha é uma ilha flutuante, que atua como uma estação de tratamento natural, inspirada na natureza, que faz a mesma função que os afluentes dos rios. “É um módulo que fica na água com a vegetação de plantas com potencial de reduzir contaminantes orgânicos e inorgânicos. Então elas ficam ali, em cima desse módulo, e as raízes dessas plantas vão funcionar como uma cortina para reter os sedimentos. Assim, vão auxiliar na absorção de metais, que ficam aderidos no sistema radicular. E também temos a barreira filtrante, que além de conter os sentimentos, tem refil de fibras orgânicas naturais que também vão auxiliar na proliferação de microrganismos, auxiliando na redução da carga orgânica em áreas que são poluídas pelo efluente sanitário”.
William fala sobre o futuro: o sonho é ser uma plataforma de soluções. "Nosso objetivo é ter uma solução de baixo custo, que possa gerar um impacto positivo, mas que também possa ter indicadores para mensurar, controlar e ter um planejamento interno, porque assim esse cliente tem um relatório e um registro de sua operação”.
O pai de William, Célio Pessoa, que trabalhava no tratamento de minérios, trabalha hoje com o tratamento da água. Além dos dois, a equipe também conta com a atuação de Denise Dávini, engenheira Bioprocessos.