Giselle Marques: Canditada pelo PT
“O estado tem que garantir o mínimo existencial”
Por redação
Giselle Marques é natural de Campo Grande e cresceu no interior do estado, em Corumbá. Filha de advogado, quando criança tinha o sonho de ser professora, mesma profissão da mãe. Já na adolescência, desejou ser jornalista, mas, como não havia o curso na sua cidade, optou pelo Direito, que, por ser noturno, permitia o trabalho durante o dia. No início, não gostou muito da graduação, mas, ao começar a praticá-la no estágio, percebeu que ajudar o próximo estava no seu destino. Assim, direcionou seus atendimentos, nos mais de 30 anos de carreira, para a área social, para a defesa dos direitos humanos e da legislação ambiental.
Gisele é advogada, doutora em Direito pela Universidade Veiga de Almeida no Rio de Janeiro, mestre em Direito pela Universidade Gama Filho do Rio de Janeiro e pós-doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional pela Universidade Anhanguera Uniderp.
Apesar do currículo cheio de qualificações e de sua filiação ao Partido dos Trabalhadores (PT) desde os anos 80, a advogada ainda não tinha ocupado cargos públicos, optando por priorizar a família e a carreira jurídica. Após realizar funções de apoio, sempre nos bastidores, foi escolhida e convidada pelo PT para concorrer ao Governo do Estado e sentiu que era a hora de encarar o desafio de frente.
Confira, a seguir, as principais perguntas para a pré-candidata.
Ogg Ibrahim: Giselle, nesses 30 anos de carreira, acredita que o Direito mudou muito?
Giselle Marques: Mudou completamente. Quando eu fazia faculdade, os professores diziam que o advogado só precisava contar bem o fato. “Dar-me o fato, eu te darei o direito”. Hoje não, o advogado precisa saber o que os tribunais estão decidindo, muitas vezes trazendo teses novas. Os recursos que sobem até o STJ e STF são só matérias de direito, então as petições simples morrem, no máximo, no Tribunal de Justiça. Hoje só tem sucesso as advogadas e os advogados que se capacitam muito. Quando eu fui candidata à presidência da OAB, costumava falar que nossa carreira mudou tanto que hoje os advogados estão matando um leão por dia para sobreviver da advocacia. A advocacia está muito difícil, popularizou, existem muitas faculdades de Direito.
OI: Inicialmente, o partido apontava o Zeca do PT para concorrer, mas ele ficou inelegível e então surgiu o seu nome. A sua pré-candidatura te pegou de surpresa?
GM: Sim, me pegou de surpresa. Mas o que me deixa ainda mais surpresa é ver o tanto que eu estou preparada, o tanto que eu estou à vontade para fazer projetos, elaborar propostas para discutir o futuro do nosso estado. Como professora universitária, o que eu faço é orientar dissertações e teses que estão voltadas para viabilizar alternativas para o desenvolvimento sustentável do Mato Grosso do Sul - então já é isso que eu faço, eu estou muito à vontade. Eu me filiei ao PT ainda nos anos 80, comecei militando no movimento estudantil. No movimento estudantil, eu ouvi estudantes que falavam ‘olha estão em disputa os interesses dos trabalhadores e os interesses do capital’, é o que a gente vê hoje, por exemplo, no Brasil. A gente não ouve o atual governo preocupado com a fome, com a miséria nem com as questões sociais, mas sim muito preocupado com a questão do lucro dos banqueiros, com o superávit na balança comercial. Quando eu tive que escolher, eu escolhi o lado dos trabalhadores, o lado das pessoas que produzem as riquezas desse país com o suor do próprio rosto.
OI: Com pouca experiência pública, acredita que será um desafio muito grande enfrentar a bagagem política dos outros candidatos?
GM: Na última eleição o PT enfrentava o pior momento, Lula preso, Operação Lava Jato, toda aquela farsa que o Sérgio Moro representou. Naquele pior momento, nós tivemos como candidato a governador pelo PT, o Humberto Amaducci - que é de Mundo Novo, foi prefeito reeleito, uma pessoa do interior e, mesmo naquele pior momento, o PT teve quase 11% dos votos aqui no estado. Hoje, com o Lula liderando todas as pesquisas de intenção de votos e com as pessoas empobrecidas pelo governo que está a frente do país, eu acredito que tenho condições de dobrar a votação do Humberto e de estar no segundo turno disputando com condições de vir a ser eleita e ser a nova governadora de Mato Grosso do Sul.
OI: Se eleita, quais as primeiras medidas que a pretende tomar como governadora?
GM: Estou muito preocupada com a população de rua, que só cresce. Estou preocupadíssima com a região da antiga rodoviária aqui em Campo Grande, que virou uma cracolândia. Então, eu quero primeiro atacar a habitação e o déficit habitacional - medida que só é possível com uma parceria entre governo federal, governo estadual e municípios. O Bolsonaro praticamente zerou os investimentos nessa área da habitação. Em termos de Mato Grosso do Sul, de 2016 pra cá, o pouco que aconteceu foi com recursos do Tesouro de uma forma muito tímida, então eu quero sim sentar com o Lula para gente programar aqui uma política habitacional dentro dos mesmos princípios que inspiraram PAC 1, PAC 2, Minha Casa Minha Vida e quero conversar também com os prefeitos, porque os vazios urbanos são em decorrência da especulação imobiliária, então, é importante acontecer o IPTU progressivo para que essas áreas mais próximas ao centro não fiquem à disposição dessa especulação.
OI: Falando agora do agronegócio. Nós estamos num estado em que os produtores rurais tendem à direita. Como a senhora pretende conquistar esse público?
GM: Como advogada ambiental, eu tenho muitos clientes do agronegócio. Percebo que uma parcela dos produtores agrícolas e pecuaristas já perceberam que um dos grandes problemas é o clima instável, as secas, os alagamentos, que estão vindo em decorrência do aquecimento global. O que eu vejo é que é necessário mudar a lógica da produção. Hoje existem muitas alternativas de controle biológico de pragas e para a recuperação de áreas degradadas. E por que que o produtor rural muitas vezes não recupera essas áreas? Porque faltam políticas públicas. Ter um trator é caro, o arame está caríssimo, os insumos estão caríssimos. Então, o governo tem que chamar esses produtores, organizar uma ação conjunta, liberar uma política pública focada para recuperação de áreas, focada em uma produção sustentável, para que a gente tenha um agronegócio como resultado de um produto com baixa emissão de carbono, que é o produto mais procurado no mercado internacional. Para mim, a questão ambiental tem que ser uma política pública que permeia todos os setores da produção do estado, eu quero ajudar o agronegócio a fazer uma produção sustentável.
OI: E quanto à carga tributária do estado?
GM: Como governadora, eu quero discutir a redução do ICMS da energia elétrica (que aqui no nosso estado é a 7ª tarifa mais cara do Brasil). As indústrias não querem ficar aqui, é muito caro. Eu quero discutir a redução de impostos, pensando assim: quem consegue viver sem energia elétrica? Todo mundo tem que pagar, o pobre paga 25% e o rico paga 25%. Só que nós precisamos fazer uma distribuição das obrigações tributárias: quem é mais rico paga mais e quem é mais pobre tem que pagar menos, é questão de justiça tributária. Eu pretendo colocar na mesa de discussão a redução do ICMS em várias frentes e eu acredito que isso é possível. Nós somos contra o teto de gastos, o PT é contra, porque só se pensa em limitar o investimento nas áreas sociais. O Estado tem que garantir o mínimo existencial, as pessoas tem que ter pelo menos um teto, conseguir pagar energia elétrica, ter acesso a água encanada, rede de esgoto, isso o Estado tem que garantir. Essa é a marca do PT: garantir o mínimo para as pessoas sobreviverem com dignidade. A redução da carga tributária tem que vir considerando que quem realmente tem muito lucro, muito rendimento e muito patrimônio tem que pagar mais.
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*A ordem das entrevistas nas páginas da revista e de divulgação em nossas redes sociais (YouTube, Spotify e Instagram) foi definida por meio de sorteio, com ciência e acompanhamento das assessorias. Todos foram entrevistados entre 19 de maio e 14 de julho, enquanto, ainda, pré-candidatos ao Governo do Estado (o registro de candidatura ainda não havia sido formalizado).