Por Ana Laura Menegat
Com o lema e o desejo de mudar vidas, a Fundação para o Estudo e Tratamento das Deformidades Crânio-Faciais (FUNCRAF) atua via Sistema Único de Saúde (SUS), prestando atendimentos a pacientes com fissura labiopalatina e deficiência auditiva. A instituição filantrópica possui uma equipe multidisciplinar, composta por fonoaudiólogos, psicólogas, pediatra, neurologista, cardiologista, assistente social e enfermeira.
A FUNCRAF foi criada no ano de 1985 em Bauru, no interior de São Paulo, atuando no Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da USP. A partir de 2017, abriu filiais em São Bernardo do Campo (SP), Itapetininga (SP) e em Campo Grande (MS). A unidade sul-mato-grossense existe desde 2000 e atualmente possui 27.149 pacientes, sendo 60% da capital e 40% do interior.
A fissura labiopalatina pode ser apenas uma fenda no lábio da criança, ou se estender até o palato, que é o céu da boca. A cirurgiã-dentista e responsável técnica de fissura labiopalatina, Anna Cláudia Jorge Amaral, afirma que as crianças, antes e depois de realizarem a cirurgia para fechar a fenda, passam por acompanhamento da equipe de fonoaudiologia. Ela explica que a cirurgia do lábio pode ser feita a partir dos três meses de idade e a do palato, a partir de um ano.
Anna Cláudia acredita que informações erradas acabam causando angústias nas famílias e que, ao chegarem à FUNCRAF, elas são amparadas. “Muitos [pais e mães] chegam aqui emocionalmente abalados por não saberem como lidar com isso, sobre como o filho será reabilitado e como vai crescer. Nessa consulta de caso novo, a gente orienta e acolhe, aí as famílias já saem daqui mais tranquilas”, relata.
No caso da deficiência auditiva, ela pode provir de questões genéticas ou ser resultado de perdas que vão acontecendo ao longo do tempo. O fonoaudiólogo e responsável técnico de deficiência auditiva, Herbert de Souza Vieira, explica que quando um novo paciente chega na Fundação, essa pessoa passa por um médico otorrinolaringologista, que o encaminha para uma bateria de exames com as fonoaudiólogas e, posteriormente, retorna ao otorrino, que faz a indicação do aparelho auditivo.
Os aparelhos são feitos na própria Fundação e os modelos e tamanhos variam de acordo com a perda auditiva de cada paciente. Herbert explica que há um período de 30 dias para testes e, após essa adaptação, é feito um acompanhamento de seis em seis meses pela equipe da FUNCRAF, mas ele ressalta que a instituição está sempre de portas abertas para quando o paciente precisar de suporte.
Quando as famílias chegam à FUNCRAF em busca de atendimento para seus filhos e filhas, as crianças passam por consultas com todos os profissionais: fonoaudiólogos, dentistas, psicólogos, assistentes sociais, pediatras, entre outros. O responsável administrativo, Kelson Cáceres, acredita que o primeiro contato é focado no acolhimento e na aceitação. “Os pais vêem e acham que a culpa é deles, se perguntam: o que eu fiz durante a gestão? O que aconteceu? Então esse acolhimento da psicologia e da assistência social é muito importante”.
Herbert entende que esse apoio psicológico auxilia na vivência do luto trazido pelo diagnóstico. “Quando a criança é inserida no suporte em psicologia, tanto ela quanto os pais são trabalhados. A psicóloga atua nessa fase de culpa, depois a família começa a entender o tratamento e, posteriormente, vêm a aceitação”.
A verba da FUNCRAF provém do SUS, porém o valor destinado à instituição não é suficiente para cobrir todos os gastos. Anna explica que o preço dos materiais necessários para os atendimentos e tratamentos vem aumentando muito ao longo dos anos, mas os valores referentes à tabela SUS não têm sido atualizados.
“O SUS hoje: nós atendemos ao máximo que podemos, com qualidade, excelência e eficiência, mas recebendo [o equivalente para] cobrir 60% do nosso custo, os outros 40% a gente tem que correr atrás de doações e buscar de outros lugares, porque não existem políticas públicas. Eu vejo, na verdade, como um desinteresse do poder público”, afirma Herbert.
O fonoaudiólogo acredita que a equipe da FUNCRAF atua como facilitadora para que pacientes tenham acesso à tecnologias e a uma saúde de qualidade via SUS, o que teria custos elevados em clínicas privadas. Porém, ainda faltam recursos do governo para que os atendimentos sejam ainda melhores. “Eu acho que faltam políticas públicas, e as existentes são muito desatualizadas, que não acompanham mais a evolução de tecnologia, de diagnóstico, de acessos e de direitos dos pacientes” defende Herbert.
Apesar das dificuldades, todos os profissionais da Fundação se envolvem de forma emotiva com as pessoas que passam por seus cuidados. “É muito desgastante tentar trabalhar na parte administrativa com os 27 mil pacientes que a gente tem hoje, mas quando a gente sai ali e vê [a reabilitação das pessoas], a gente pensa: nossa, está valendo a pena. Por mais que o poder público não nos dê o que precisamos, vale a pena quando a gente percebe esse desenvolver”, finaliza Kelson.
Quem deseja ajudar a instituição pode contribuir financeiramente, com doações de qualquer valor, pelo PIX - CNPJ 50.844.794/0004.90 (em nome de Funcraf).