UFMS censura e realiza desmonte ao curso de jornalismo
Os sites utilizados por professores e alunos estão fora do ar desde julho
Por Ana Laura Menegat
O curso de graduação de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) está sofrendo censura e represália provindas da Reitoria e de suas instâncias. Nesta quarta-feira (24), a coordenação do curso se reuniu com os acadêmicos para explicar o que está acontecendo e discutir quais medidas podem ser tomadas.
O curso de jornalismo da UFMS conta com quatro sites suspensos, sendo eles o institucional; o Primeira Notícia, portal jornalístico referente à disciplina de ciberjornalismo; o Projétil, jornal laboratório do curso e o site de Fotojornalismo.
O acesso a estas redes foi suspenso sem aviso prévio e está nessa situação desde julho. A justificativa apresentada é a de que as informações presentes infringem as normas estabelecidas pela lei eleitoral, porém, a legislação se refere a conteúdos publicitários relacionados a políticos, o que não se enquadra nas publicações que os sites do curso disponibilizam. Todas as informações publicadas são institucionais e possuem caráter jornalístico com fins informativos.
A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 assegura em seu artigo quinto o direito à informação como um direito básico a todo cidadão e cidadã brasileira. No mesmo documento, a liberdade de imprensa é garantida no artigo 220. Ambos artigos são violados através das imposições realizadas pela Reitoria da UFMS.
O coordenador do curso, professor Felipe Quintino, entende esse momento como delicado. “A retirada de todos os sites do curso de jornalismo prejudica bastante o andamento, tanto dos trabalhos, quanto do próprio andamento das disciplinas. Acho que é uma interpretação equivocada da direção da universidade de retirar essas páginas com base em um estrutura de legislação eleitoral que nosso trabalho, todos conteúdo desses sites jornalísticos são de conteúdo informativo, não tem qualquer relação política de apoio a nenhum candidato, nem menções políticas eleitorais, são todas relacionadas a conteúdo informativo noticioso do nosso trabalho jornalístico”.
Ele afirma que espera que a universidade reveja essa medida e volte os sites em sua totalidade, sem mais censuras. “Espero que esses sites voltem com toda força para que a gente faça um trabalho cada vez melhor e como é feito aqui no curso de jornalismo, todos esses sites são produzidos e mediados por professores e professoras a partir da produção dos alunos e alunas”.
Além das violações à Constituição, o bloqueio dos sites prejudica o processo de aprendizagem de quem está na graduação. A disciplina de ciberjornalismo fica impossibilitada de dar continuidade às produções sem que o acesso ao sistema seja feito, pois os ensinamos desta matéria são voltados ao jornalismo veiculado no ambiente da web, o que requer que os acadêmicos tenham acesso ao site e aprendam a gerir as ferramentas do sistema.
A acadêmica Raquel Alves é monitora da disciplina e destaca que os alunos deste semestre pediram referências das matérias já publicadas, porém com o site fora do ar, não é possível disponibilizar o conteúdo. “Quando a gente chega em ciber, ficamos muito perdidos sobre o que é esperado na produção textual, então ter um banco de dados disponível com materiais antigos auxilia nesse processo e facilita a aprendizagem”.
Além disso, na Exposição de Pesquisa Experimental em Comunicação (Expocom) de 2022 o Primeira Notícia ganhou o prêmio regional na categoria “Rádio, televisão e internet - RT 07 website”. Se este bloqueio estivesse acontecendo no momento em que a avaliação estivesse acontecendo, o veículo teria sido desclassificado por estar fora do ar.
A disciplina de Jornal Laboratório também sofre com essa realidade, pois apesar da sua produção jornalística ter como produto final um jornal impresso, também há a produção de conteúdos específicos para o digital. Esta limitação faz com que haja uma defasagem na capacitação dos futuros jornalistas.
Ausência de técnicos
Outro problema enfrentado pelo curso é a ausência de técnicos para auxiliar nas disciplinas de Laboratório de Radiojornalismo e Laboratório de Telejornalismo. No caso da matéria televisiva, desde o semestre passado a professora responsável pela disciplina só tinha um técnico à disposição para editar as produções, o que não era suficiente para atender a quantidade de demandas. Neste segundo semestre, não há mais técnicos de edição e a disciplina conta com apenas um cinegrafista disponível para acompanhar as gravações das três turmas em vigência.
Em Radiojornalismo, um projeto que demorou oito anos para conseguir ser aprovado está impossibilitado de continuar por conta da ausência de técnicos. A Rádio Educativa da UFMS funciona divulgando conteúdos relacionados à pesquisa, ensino, extensão e inovação trabalhados no ambiente universitário e o curso de jornalismo participa da programação da rádio por meio da Rádio Corredor, projeto no qual os alunos conduzem um programa radiofônico transmitido no corredor central da UFMS.
Além disso, a programação radiofônica do curso se estende para o programa Plural, uma produção que conta a exposição de trabalhos de diversas áreas e temáticas. Esse programa está suspenso também pela falta de técnicos para auxiliar nas transmissões. Desde o semestre anterior, existem programas parados sem publicação por conta deste empecilho.
Mudança de bloco
O terceiro problema está relacionado à infraestrutura, pois a direção da Faculdade de Artes, Letras e Comunicação (FAALC) foi transferida para um bloco próximo ao Lago do Amor, bem distante de onde as outras salas e coordenações estão. O problema é que o “bloco novo” não foi entregue nas melhores condições, está sujo, empoeirado e com acesso precário à internet.
No momento, o curso de jornalismo não irá se deslocar, pois o bloco não possui laboratórios prontos e a graduação depende destes espaços. Porém, o Programa de Pós-graduação em Comunicação (PPGCOM) já foi transferido para o novo local.