Livraria independente de Campo Grande lança selo editorial
O primeiro livro publicado será “Usamos tudo para poesia” de Alessandra Coelho
Por Ana Laura Menegat
A Hámor é uma livraria independente que acaba de lançar também seu selo eleitoral, chamado de Hámor Ediçõe. Os idealizadores, Bianca Resende e Felipe Mafra, não esperavam que o selo editorial surgisse tão rápido, planejavam antes abrir uma loja física da Hámor enquanto livraria, mas a editora pediu pressa. Ao conhecerem a história de Alessandra Coelho, poeta, e saberem das angústias que a carioca estava passando para publicar seu primeiro livro de forma independente, o casal sentiu que este era o momento para o selo nascer.
“Usamos tudo para poesia” será o primeiro título publicado pela Hámor Editorações. “Antes de lançarmos, estávamos conversando com várias pessoas e percebemos uma carência muito grande, não só de uma editora, porque existem editoras em Campo Grande, mas sim do cuidado editorial, de pensar o livro como um todo, eu não tive isso”, afirma Bianca, que lançou seu livro “19 e outros contos de amor” de forma independente.
Além disso, eles sentiam que muitas produções boas não estavam sendo publicadas, ou eram lançadas de qualquer jeito, assim a Hámor surge como uma oportunidade de acolhimento e abraço quentinho - da editora às escritoras e aos escritores.
Felipe sente que a existência da Hámor enquanto livraria já estava contribuindo para o desenvolvimento de um olhar diferenciado para os livros, pois a iniciativa trabalha com publicações de editoras independentes ou de editoras grandes mas que não chegam ao MS, e que essas publicações já possuem trabalhos de capa que se diferem do comum.
Para Bianca, planejar e lançar um livro é como parir e criar filhos, pois são várias etapas para serem percorridas, com altos e baixos pelo caminho. Para que uma editora funcione de forma fluida e responsável, é preciso que haja profissionais para cada função, ocupando os cargos de revisão, designer, capista, conselho editorial, entre outros. No caso do livro de Alessandra, Felipe e Bianca contam com uma equipe que apoia a iniciativa e que trabalha para que o produto final saia da forma mais cuidadosa possível.
Essa rede de apoio formada entre as pessoas envolvidas na editoração e os escritores e as escritoras de Campo Grande é o que o casal ressalta de mais lindo neste processo. É com essa lógica colaborativa que o livro de Ale será bancado, através de um financiamento coletivo na benfeitoria.
Bianca considera que a forma com que a publicação está sendo conduzida é uma maneira agridoce, pois existem muitos altos e baixos ao longo da campanha de financiamento coletivo. “Tem muitas alegrias, porque vem apoio de quem você nem acredita e forma essa rede de pessoas torcendo e acompanhando, também tem os dias que dá uma ansiedade, será que vai dar certo, será que vamos conseguir”.
Por já ter passado isso com seu livro, Bianca entende as dores e inseguranças que podem surgir ao longo do período de financiamento e por isso, ela e Felipe buscam tranquilizar Alessandra e fazer com que o processo de publicação do livro não seja tão árduo para a jovem escritora.
Bianca e Felipe destacam que a escolha do financiamento coletivo para que o livro seja bancado tem relação com o que a Hámor acredita e defende. “A gente poderia juntar uma grana e publicar sem o coletivo, mas a proposta da editora é esse chamado coletivo, para as pessoas pensarem em que pé andam os artistas e escritores em Campo Grande e o quão importante é pensar o livro”.
Felipe destaca a necessidade de se pensar os processos que envolvem a publicação de uma obra, pois vai além de escrever e ler. Para que a Hámor enquanto selo editorial siga caminhos prósperos, ele busca se dedicar ainda mais ao projeto, torcendo para que as ideias cresçam como uma árvore com raízes fortes, que dê frutos e sirva de semente.
Assim, entre tantos nascimentos (da livraria, da editora e do livro de Alessandra), o casal busca, acima de tudo, estimular uma nova forma de ver os escritores locais e os livros. “A gente quer que escritores e escritoras daqui tenham essa oportunidade, porque não adianta só ter o dinheiro para publicar um livro, você vai ficar com um monte de caixa na sua casa e às vezes isso não vai pra lugar nenhum. A gente quer dar essa assistência na distribuição, fazer o livro circular, porque as palavras não são nada na gaveta e nem dentro de uma caixa, elas têm que estar por aí”, conclui Bianca.