Dia da fotografia: a volta das analógicas e o poder do imprevisível
Fotógrafos de Campo Grande relatam suas trajetórias fotográficas e se relacionam emocionalmente com os registros feitos em filmes
Por Ana Laura Menegat
Olhar com atenção, escolher o melhor ângulo, avaliar a luz e tantos outros detalhes não passam despercebidos pelos olhares de Marina e Gabriel. Marina Pansani é acadêmica de audiovisual da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e fotógrafa. Se denominar como tal ainda cria um estranhamento nela, pois a jovem amante de imagens se sente em um limbo entre ser amadora e profissional. Gabriel Quartin é designer, fotógrafo e laboratorista, e, antes de tudo, amante da fotografia - seja a registrada pelos seus próprios olhos ou por olhos alheios.
Marina sempre gostou de registrar momentos e foi ao longo dos anos do ensino fundamental e médio que a câmera de seu celular virou melhor amigo. Em Gabriel, o ato fotográfico nasceu como uma válvula de escape ao período de introspecção da adolescência. “O pulsar criativo da infância investiga, era mais fácil me comunicar com imagens do que com palavras. Comecei a fotografar meu trajeto da escola diariamente com o celular, em 2014. Daí em diante, fotografar foi se tornando inerente na minha vida”, afirma ele.
Por rumos diferentes, Marina e Gabriel se encontraram, mesmo sem se conhecerem, na paixão pelo momento eterno, preso em uma imagem. E nos caminhos e descobertas em torno destes registros, a fotografia analógica se torna uma escolha. Ela regressa com câmeras antigas, filmes diversos e muito a ser ressignificado. Hoje, 19 de agosto, é dia da fotografia, a linguagem que não precisa de palavras para falar.
O retorno analógico
Há alguns anos, no Brasil e no mundo, as pessoas têm voltado a se interessar pela fotografia analógica, que possui um ritmo mais lento e imprevisível do que os registros digitais, que podem ser feitos a qualquer momento através de um celular ou câmeras. Os registros feitos quimicamente não dependem apenas de um click, mas sim de diversas escolhas que resultam na estética desejada - ou não.
Ao escolher fotografar em vias analógicas, é preciso escolher o filme, sabendo que todas as poses registradas estão submetidas às mesmas condições de iluminação, presença ou ausência de cor e variação tonal. Além disso, o equipamento fotográfico e a forma com a qual o filme é revelado podem impactar no resultado final da imagem.
O primeiro contato de Marina com a fotografia química aconteceu de forma tímida. Aos oito anos, ela foi até a casa de seu avô, após ele ter falecido, e de recordação escolheu a câmera analógica que ele tinha. O aparelho precisa de reparos, então ainda não foi usado pela nova dona, mas Marina sonha em um dia consertá-lo.
Ela sente que sua estética fotográfica muda de acordo com o formato escolhido. “Eu sinto que a fotografia analógica parece mais real, não sei explicar. Quando eu pego a analógica, eu sinto que as fotos ficam mais espontâneas, mais bonitas. Parece contraditório, mas com a digital eu sinto que eu tenho que pensar mais, eu quero fazer um conceito maior e com a analógica eu quero apenas registrar momentos”.
Gabriel cresceu vendo a fotografia impressa ir para a caixa de sapato e os registros novos se fixarem apenas em telas. Sentia falta de experienciar esse primeiro momento imagético. “A fotografia analógica é o início da fotografia e isso me fazia sentir como se tivesse pulado uma etapa. Então migrar para o analógico foi uma ânsia de aprender a fotografar de novo e aprofundar meus estudos fotográficos”.
Gabriel comprou sua primeira câmera nova-antiga no começo de 2019 e Marina entre os anos de 2020 e 2021. Ambos não largam mais os equipamentos e os horizontes por eles abertos. Neste ano, Marina e Gabriel tiveram experiências novas em torno da fotografia analógica. Ela participou de um projeto envolvendo o Brasil todo e ele abriu seu próprio laboratório de revelação.
A proposta na qual Marina embarcou se chama Deriva fotográfica e cria possibilidades de conexões entre diversos estados brasileiros, fazendo com que as pessoas troquem filmes e realizem dupla-exposição, que é quando uma fotografia é registrada em cima de outra imagem já existente. Esta técnica pode ser feita também em registros digitais, mas a proposta do Deriva é fazer isso usando três rolos de filme. As imagens de Marina viajaram até a Paraíba para serem compostas. “Tem muita gente interessante na fotografia, eu aprendi bastante coisa. Acho que a parte mais legal do Deriva é estar em contato com outros fotógrafos”, defende ela.
Come Filmes é o nome do laboratório caseiro de Gabriel. Desde a abertura, quase 200 filmes foram devorados para a revelação, transformando em visíveis as imagens latentes. Antes de abrir o laboratório, ele queria ter a experiência de ver a magia acontecer e desde suas primeiras tentativas até hoje, sente que o aprendizado foi enorme. “Manter o laboratório é uma aventura. Ele não é minha fonte de renda primária, então o tempo que dedico a ele são intervalos do meu tempo livre, isso faz com que meu ritmo seja mais lento. Conto com a compreensão dos clientes e é muito gratificante ver que eles entendem e mantém a procura”.
Gabriel sente que aprender o antigo o ajudou com o novo, de forma que suas técnicas na fotografia digital ganharam muito com a experiência analógica. “O errar também fica mais evidente, já que é mais fatal no filme do que no digital. Lidar com esses erros e imprevistos, e as frustrações que podem vir com eles, foi a parte mais importante. Errei tanto que agora já não quero errar mais. A meta virou buscar resultados mais "limpos" com exatidão de cor. Hoje vejo como linguagem, tem horas que essas imperfeições ajudam outras atrapalham, mas de todo jeito contam uma história”.
Marina vê esse retorno às analógicas como a liberdade de escolher, que provoca de fato uma escolha consciente. “Eu acho interessante, porque muda um pouco a nossa relação com a fotografia em si, eu sinto que a analógica traz essa atenção mais sobre a foto”.
Gabriel se identifica com a fotografia-lembrança-saudade, ao invés da fotografia-anotação. “Gosto desse movimento de busca por uma foto pensada, essa construção de lembranças especiais ou até mesmo um experimentalismo em que se tem mais autoria do que tecnologia. Para fotografar, é necessário estar atento e sensível ao seu redor e justamente é essa sensibilidade e atenção com o próximo que precisamos socialmente”.