Zanir Furtado: O luxo do Pantanal - Entrevista de capa da 13° edição da CG City!

A história da empresária que criou a primeira indústria de bolsas de couro do estado e que, em pouco mais de 2 anos, já conquistou o mercado de luxo internacional

Por

Por Ogg Ibrahim

Há quase dois anos, durante uma conversa com o companheiro dentro do carro, em uma viagem de Brasília a Campo Grande, Zanir Furtado decidiu montar uma fábrica de bolsas em Rio Negro, no interior de Mato Grosso do Sul. Contrariando o descrédito de muitos e o pessimismo do período pandêmico, a ideia, em pouco tempo, conquistou clientes no Brasil e no mundo. Hoje, as bolsas Zanir Furtado são disputadas por lojas em Paris e Portugal, estão presentes em Alphaville, São Paulo, e em breve estarão em uma loja exclusiva em Miami, nos Estados Unidos.

Zanir é uma sul-mato-grossense que mostra a força do sonho e do trabalho. De família humilde da zona rural, ela se formou como professora e ajudou o noivo a construir negócios prósperos na área da construção civil. Hoje, como empresária, busca agregar valor social e ambiental aos seus produtos, priorizando a mão de obra local e o desenvolvimento regional. No bate-papo a seguir, confira a história meteórica e de sucesso dessa nossa conterrânea que sonha e faz acontecer.

Ogg Ibrahim: Como surgiu a ideia de montar uma fábrica de bolsas em MS?

Zanir Furtado: Mesmo morando em Brasília hoje, eu nunca deixei de me encantar e de me preocupar com a minha cidade, Rio Negro. Como filha da região, eu conheço bem as oportunidades e as dores de lá. Quando eu e meu noivo decidimos diversificar os investimentos, em uma conversa vindo de Brasília, eu falei pra ele: “E se alguém ousasse montar uma indústria de bolsas e acessórios de couro? Ia ter muita dificuldade no início, mas também teria muita chance de dar certo”. Na hora ele respondeu: “Se a gente quer investir e quer diversificar, por que não sermos nós?”. E assim fizemos. Não tem nenhuma outra fábrica de bolsas de couro em Mato Grosso do Sul, somos os únicos.

OI: A sua é a primeira e única até hoje?

ZF: Exato. É a única inspirada e produzida no Pantanal. E isso foi em 2019. Naquele momento, lá no carro, já comecei a pesquisar, para ver a viabilidade. Lembro que chegamos em Campo Grande à noite e, no outro dia, na hora do almoço, eu já conversei com a minha irmã, professora também da rede estadual e municipal, e falei: “Eu moro em Brasília e não vou montar algo em MS sem eu ter alguém meu aqui”. Ela topou, com a cara e a coragem, né? Olha só a confiança. Aí falei: “Agora vamos estudar”. E foi um ano de estudo de viabilidade. Nesse processo, eu descobri que o nosso couro aqui é 100% exportado, o couro premium não fica no Brasil.

OI: Não fica nada aqui?

ZF: Quando eu descobri isso, já nesse processo de estudo, eu chorei. Me deu um desespero, porque eu me sentia desamparada: o que é melhor não fica para nós. É como se um pai produzisse a melhor comida e desse para o outro, não pro filho.

OI: E como você começou a desenhar esse projeto?

ZF: Durante esse processo de estudo, nós descobrimos que não daria para ser uma bolsa qualquer. Para essa empresa ter sustentabilidade financeira, tinha que ser uma bolsa especial. Uma pessoa me disse assim: “Zanir, você tem noção do que está fazendo? Você está construindo uma casa no topo do Everest e ensinando o pedreiro a fazer a casa (porque não tem mão de obra qualificada em Rio Negro)”. E aí nós fomos fazer um estudo das marcas nacionais e internacionais para ver aonde que a gente poderia chegar. Então descobrimos que a única forma de ter uma marca aqui no estado era criando uma marca de luxo.

OI: Isso foi em que ano?

ZF: A ideia começou em 2019 e nós inauguramos a indústria em dezembro de 2020. Nós temos 1 ano e 5 meses de marca. Foi assim, de uma forma que nem eu consigo, às vezes, olhar e acreditar. Porque se alguém tivesse dito lá atrás pra mim, eu talvez falaria “não, não vai dar certo”, até porque entrou a pandemia.

OI: Pensando em mão de obra, seria mais viável montar essa fábrica em Campo Grande, por que escolheu Rio Negro?

ZF: Porque o meu coração está lá, pela minha conexão emocional e de história de vida, por conhecer as pessoas de lá. Eu queria gerar oportunidades para as pessoas que eu conheci. 100% da minha equipe é formada por jovens e por mulheres, muitos deles estavam em situação de vulnerabilidade.

OI: Quer dizer que, de uma certa forma, a sua empresa está inserida dentro de um contexto social?

ZF: Nasceu por isso, pelo contexto social.

OI: E você construiu a fábrica no auge da pandemia?

ZF: Bem no auge, nós chegamos a fechar a indústria por dez meses antes de inaugurar, mas depois de inaugurada tivemos uma aceitação maior do que a esperada. E o melhor: eu não precisei convencer as pessoas de que nosso produto é de valor.

OI: E como é que começou a sua produção? Com quantas bolsas?

ZF: Nós inauguramos com uma bolsa por dia, em um processo muito lento, muito artesanal. Nós temos uma preocupação muito grande com a qualidade, se a bolsa não estiver perfeita, ela não vai para venda. Não aceleramos a equipe nem terceirizamos a produção, ela é toda feita no chão da fábrica. Temos potencial para fazer muito mais bolsas, trazer mais pessoas e ir treinando. Mas, por enquanto, seguimos nesse processo exclusivo. Hoje produzimos cinco bolsas por dia e são, no máximo, quinze bolsas por modelo e cor.

OI: Realmente é uma coleção bastante exclusiva.

ZF: Muito exclusiva, não é uma bolsa que você vê em qualquer lugar, ali na esquina, é um produto para a mulher se sentir especial. Nossas bolsas são tão exclusivas que só são encontradas no site da loja parceira em Campo Grande, na loja em Alphaville (SP) e no showroom da marca, lá na indústria.

OI: De onde você busca as ideias e inspirações?

ZF: Da natureza! Às vezes estou conversando com alguém, vejo alguma coisa bonita e falo “nossa, ideia de uma bolsa”. Quando estávamos ainda no estudo de viabilidade, fomos visitar um casal de amigos numa chácara e no caminho eu vi dois pés de Ipê. E tinha um rosa e um amarelo, um ao lado do outro. Eu fiquei encantada com aquela composição. Parei, tirei fotos, falei “gente, isso dá uma combinação linda de bolsas”. Um ano depois, nasceu a coleção “A Festa dos Ipês”. Outra ideia é a coleção Arara Azul, que a gente lançou o ano passado na passarela do MS Fashion Week, inspirada na ararinha, mesmo as cores dela (azul e amarelo) sendo cores que as pessoas geralmente não querem usar.

OI: E como o mercado internacional descobriu as bolsas Zanir Furtado?

ZF: Inicialmente, através do Instagram e de algumas clientes. Além disso, o Centro Internacional de Negócios, o SEBRAE e a FIEMS também ajudaram. Nós entramos em um projeto para a internacionalização de empresas aqui do estado, um trabalho incrível. Tivemos acesso a uma capacitação, eles apresentaram a nossa marca lá fora e a aceitação foi muito grande.

OI: Você atribui a aceitação ao apelo ecológico?

ZF: Pantanal, né? A gente está mostrando o Pantanal com um viés mais artístico e elegante, porque, em regra, ninguém fala em luxo no Pantanal. Então a marca vem com essa proposta: de mostrar que aqui no Pantanal temos coisas incríveis e que é luxo sim comer uma comidinha pantaneira, que é luxo sim conhecer a cultura do povo daqui da região, se deliciar com o pôr do sol… Gente, eu faço isso todos os dias na chácara, não tem preço isso, não tem.

OI: E vocês já pensaram em utilizar o couro de jacaré, criado em cativeiro, para produzir bolsas?

ZF: Já começamos a utilizar, mas não está no mercado ainda porque estamos desenvolvendo as primeiras peças. Nossa ideia é trabalhar com couro de jacaré e também com o de avestruz. Outra ideia que estou começando a estudar, mas ainda não consegui fechar a cadeia, é o couro de peixe.

OI: Pela exclusividade, suas bolsas não devem ser baratas. Qual o valor mais ou menos?

ZF: Minhas bolsas têm bastante valor agregado. Variam de R$1.580 a R$6.500.

OI: E como é que você conseguiu posicionar o seu produto diante de outras marcas?

ZF: Com a minha verdade. A Zanir Furtado não se compara a nenhuma marca no planeta, porque o que a gente faz é diferente de tudo. Eu acredito muito no que eu faço. E, por não ser mentira, as pessoas entendem isso. Eu não perco tempo convencendo alguém de que meu produto é bom. Afinal, quanto custa montar uma indústria praticamente no meio do nada? Quanto custa capacitar pessoas? Quanto custa ter que comprar quase toda a matéria prima que vem de fora? Quanto custa todo o valor agregado? Não dá para se comparar. Onde nós estamos e o processo que estamos criando é de muito valor agregado, que não pode se comparar com outras marcas com produção em grande escala.

OI: O contexto importa, né?

ZF: Claro. Uma cliente que investe em uma Zanir Furtado sabe que está investindo em sustentabilidade social, ambiental, empoderamento, contribuindo com o planeta, deixando um legado para os jovens que estão vindo aí, né? Nos nossos netos e bisnetos que vão poder ter um futuro mais saudável. A gente espera e está trabalhando para isso.

OI: Voltando ao início, no começo do projeto, duvidaram de você?

ZF: O tempo todo! Até minha mãe! Mas eu acredito muito no propósito de vida, que nós estamos aqui no planeta para fazer a diferença. Penso muito que a nossa vida não se resume só a este momento. Então, qual é o legado que eu quero deixar? Por que estou aqui? É para fazer a diferença na vida das pessoas, para fazer a diferença no planeta.

OI: E agora, além das bolsas, vêm mais produtos por aí?

ZF: Vêm. O nosso planejamento estratégico é bem amplo, então eu tenho um planejamento para três, cinco anos. A ideia inicial era focar nas bolsas, mas nós já estamos caminhando para os acessórios. Nós já temos calçados masculinos, cintos e futuramente teremos também roupas.

OI: E os seus sonhos, todos já estão se tornando realidade?

ZF: O meu sonho de infância era ser estilista, então eu me tornei estilista, mas nunca exerci a profissão. Isso foi entre os 13 e 14 anos, quando eu fui para a Ilha Solteira (SP) morar com os meus avós - na época meu pai recém tinha falecido e eu fiz o curso de estilismo, trabalhando como empregada doméstica. Trabalhava em duas casas para conseguir pagar o meu curso. Eu era criança, eu não tinha nem noção do que estava acontecendo, mas sonhava em desenhar e fazer roupas para mim. Hoje eu sou a designer das bolsas e, em breve, eu vou poder desenhar as roupas da marca! A minha pretensão é trabalhar com couro e seda, vai ser um sonho. Quando a gente montar a indústria de roupas aqui, vou realizar meu sonho de infância.

LINK|-|https://drive.google.com/file/d/1oiS4S5SuOMMjbaKLcgybT2BMfiETL9IR/view?usp=sharing|-|Leia a 13° edição da CG City completa!


Notícias Relacionadas »