Dia do escritor: literatura e poesia como cura
Conheça escritoras da capital que respiram arte e transformam sentimentos em palavras
Por Ana Laura Menegat
É nos cabelos tingidos de loiro e na risada genuinamente feliz que Alessandra Coelho, 21 anos, manifesta o seu amor pela arte falada e escrita. Neta de poeta e criada em meio a gibis, a carioca entende que a sua relação com sua produção literária começou com a leitura. “E se eu começasse a escrever uma história? Eu também posso fazer parte desse universo que eu amo tanto. Foi assim que começou a minha relação com a escrita e, hoje, a gente tem uma relação de necessidade. Tenho certeza absoluta que eu não conseguiria prosseguir de uma maneira saudável com a minha vida se eu não tivesse a escrita, a literatura e a poesia”, conta.
Alessandra é nascida e criada no Rio de Janeiro, mas desde 2018 chama o Mato Grosso do Sul de Casa. É acadêmica de Letras Português - Inglês na Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS), baterista na Gaia Arte, poeta e, acima de tudo, leitora.
Aos 12 anos, Eva Vilma, que possui atualmente 37, descobriu que a palavra é também potência. Filha da educação no campo, Eva participou de um concurso de escrita a nível municipal e se classificou em primeiro lugar, neste momento ela teve certeza: “eu vi que o que eu escrevia tinha sim importância”. Para ela, se posicionar enquanto escritora requer uma responsabilidade enorme e que é preciso estar aberta às críticas. “A partir do momento que você se reconhece enquanto escritora, assume essa vulnerabilidade. Você chama para si uma responsabilidade muito grande de estar atenta o tempo inteiro”.
Hoje, 25 de julho, é dia do escritor e a escrita sul-mato-grossense é viva e grita e chora e ri e se debate em prol da sua existência. Campo Grande se tornou lar para um dos maiores nomes da poesia brasileira, Manoel de Barros, mas ano após ano mostra que pode abrigar ainda mais vozes.
Identidades
Eva é mulher, mãe de um adolescente homossexual, escritora, professora e capoeirista. Entende a escrita como válvula de escape e uma forma de libertação. É autora de dois livros de poesia, “Incômoda” e “Incandescente”, e também escreveu o livro de literatura infantil “Ela é”, além de coautorias e coletâneas. Eva acredita que mesmo quando incorpora outros “eu líricos” acaba sempre falando um pouco de si. “Isso está no nosso texto o tempo todo, mesmo que seja de forma inconsciente”.
A identidade de Alessandra é permeada por diferentes mulheres que a criaram e amaram. “Ser mulher, artista e amar outra mulher é um absurdo completo, ainda mais sendo pobre. E isso me faz pensar o quanto é importante continuar viva, eu tenho uma poesia que fala “progresso é continuarmos vivas”. Acredito que isso atinge a minha escrita, pois se eu não escrever sobre a minha realidade, quem vai fazer isso? Se muitas das minhas não estão mais aqui, eu preciso escrever”.
Usamos tudo para poesia
É com esse título, “usamos tudo para poesia” que Alessandra se apresenta no Instagram e também denomina seu primeiro livro que está em produção. Das coisas simples às mais complexas, ela vê poesia em todos os cantos. Na dor de dente, em um café gostoso que tomou, no amor que sente por alguém. “Eu consigo tirar poesia dos lugares mais improváveis e é isso que me inspira, eu sei que a poesia pode acontecer a partir do nosso olhar sobre uma realidade”.
A jovem poeta de alma imensa começou o processo de lançamento de seu livro de forma independente, mas se deparou com burocracias e processos editoriais que a desanimaram. Após meses esperando a nunca chegada solicitação de catalogar seu livro segundo o International Standard Book Number (ISBN) junto à Biblioteca Nacional, Alessandra recebeu o convite de uma grande amiga que está criando agora um selo editorial na capital para ser o primeiro título lançado. O nome da nova editora ainda é segredo, mas Ale conta que foi muito acolhida em todo o processo e que o livro deve nascer nos próximos dois ou três meses.
Um dos apoios que Ale tem recebido é da equipe da Hámor, uma livraria independente criada por um casal apaixonado pelas palavras. Bianca Resende e Felipe Mafra se conheceram em 2014 e lá também floresceu o desejo por terem uma livraria e compartilhar momentos com as pessoas. Em outubro de 2021 esse sonho tomou forma e saiu andando pelas ruas e corações da Cidade Morena, somando Marcela Loureiro à equipe.
Bianca acredita que por atuarem de forma independente, também são um ponto de apoio e segurança para artistas locais. “No caminho que percorremos até agora, ficamos próximos de alguns escritores e escritoras e sentimos que eles nos apoiam muito também. É algo recíproco, o que nos deixa muito felizes. Um passa segurança para o outro; eles e elas acreditam muito na gente e nós acreditamos muito também na escrita”.
Eva defende a literatura não só como uma forma de expressão e uma potência revolucionária, mas também como uma alternativa para a alfabetização de crianças. Ano passado, Eva desenvolveu o projeto “Criançaria Literária” na escola municipal Abel Freire de Aragão, iniciativa que estimulou crianças a trava-línguas e outras formas de explorar a língua. Além disso, os pequeninos também foram impulsionados a escrever seus próprios textinhos e Eva conta que foi lindo e emocionante o momento em que cada um pôde ver os seus livrinhos impressos. “Eu também escrevo, eles diziam”.
Um sonho
A pedagoga também participa do coletivo de poetas “Tarja Preta”, que se reúne para debater sobre arte, literatura e questionarem suas próprias produções. Eva explica que o nome foi escolhido por que a maioria dos participantes que fundaram o grupo faziam uso de medicações tarja preta, e perceberam que após poucos meses de contato e troca, algumas pessoas passaram a reduzir a dosagem da medicação. “É a poesia e a literatura como cura”.
“Poesia para mim é a manifestação artística de uma realidade sentida no corpo”, é como define Alessandra. Para Eva: “Literatura é um recorte histórico da nossa sociedade e por isso ela está sempre em movimento”.
Alessandra e Eva acreditam que falta mais conscientização em Campo Grande a respeito da importância da literatura e que a cidade precisa valorizar essa forma artística em si e não apenas determinados nomes da área. Ale sonha em viver de arte, mas ainda não consegue. “É uma aposta muito grande, mas muito em breve eu quero tentar”.
A equipe da Hámor afirma ainda está descobrindo o cenário da literatura na capital, mas mantém os olhos e ouvidos sempre curiosos e atentos para artistas que habitam esse espaço. O sonho é ter um espaço físico para reunir todos e todas as amantes da literatura e criar coletivamente um mundo apaixonado pela palavra.