Dia do tatuador: No ritmo da agulhada
Tatuadoras da capital sul-mato-grossense resistem por meio de agulha, tinta e desenho
Por Ana Laura Menegat
O ambiente conta com paredes coloridas: da metade para baixo são rosas, da metade para cima, brancas. Mas não são estas as únicas cores a ocupar os espaços. Vermelho, roxo, azul, verde, amarelo, preto. Todas invadem as paredes e os olhos de quem entra no estúdio da Orphans Tattoo, local onde Julia Nascimento, de 25 anos, tatua. As cores assumem traços e os traços viram formas, mundos, ideias, desenhos e, acima de tudo, tatuagens. O bzz bzz das máquinas resume todo o momento de marcar na pele a vontade de ser dona do próprio corpo.
Em seus cabelos escuros, no sorriso discreto e no corpo coberto por tatuagens, Julia carrega um desejo: marcar outros corpos e vidas com sua arte. Conhecida por seu perfil no Instagram, @goodluck.julia, a jovem tatuadora iniciou seus aprendizados na arte sete anos atrás e trabalha profissionalmente com tattoo há quatro anos. O gosto por essa forma de expressão artística vem desde os 14 anos, quando conheceu uma comunidade de tatuagens tradicionais no Orkut. Quiçá esse amor pela arte tenha nascido ainda mais cedo, quando era criança e brincava de rabiscar o corpo.
Para Thais Barros (@barros.ink), de 26 anos, o encontro com a tatuagem aconteceu ao acaso, mas foi significativo o suficiente para nunca mais deixá-la. Psicóloga de formação e filha de artista plástica, Thais foi visitar a mãe em 2016, durante o período de férias da graduação, e conheceu uma tatuadora que se dispôs a ensiná-la. Foram duas semanas treinando em batatas e maçãs para que ela pudesse entender a profundidade da agulha, até que sua primeira tatuagem oficial ganhou forma na pele de sua mãe. “Eu falo que amor de mãe é tudo, porque a tatuagem ficou feia”, brinca.
Já Sol é intensa como o calor emanado pelo astro com o qual compartilha o nome. Sol Ztt (@solztt), de 30 anos, é tatuadora desde 2015 e sente que a tatuagem passou a ter significado na sua vida conforme ela foi aprendendo as técnicas. “A maneira que o ato de tatuar me cativou foi na relação que acontece entre mim e a pessoa que tatuo, com os símbolos envolvidos, as dores do processo, a aproximação que temos. A visão mítica que ela possibilita e sua participação no processo identitário meu e das pessoas que tatuo. Sempre há o que descobrir”, afirma.
Hoje, 20 de julho, é o “Dia do Tatuador”, marcado pela presença masculina na profissão e ausência feminina até no nome. A falta da flexão de gênero para ser também “Dia da Tatuadora” é uma das muitas lacunas profissionais da área que ainda seguem enfrentando. Porém, Julia, Thais e Sol mostram-se determinadas a transformarem esse cenário.
Ser tatuadorA
Thais carrega consigo uma voz leve e rápida. É amante de conversas e transparece em si seu carinho pela profissão que escolheu. Além de tatuar, é mestranda em psicologia e realiza consultas a pacientes, o que faz com que ela precise organizar a rotina em duas: uma parte da semana destinada à vida de estudante e terapeuta; a outra, para a tattoo.
No estúdio-jardim em que as criações de Thais habitam, a arte assume forma de vida através de linhas dinâmicas e cores vibrantes. A artista possui pele clara, cabelos curtos e castanhos e uma raposa colorida em seu braço direito. O riso é solto e os olhos atentos. É na Casa Nuvem que ela pôde se sentir ainda mais livre para ser a tatuadora e a mulher que deseja. Ela afirma que trabalhar em um espaço na qual se sente respeitada e que as opiniões políticas do grupo sejam alinhadas é fundamental. “É outra vida, é perfeito”, garante.
Para ela, ser tatuadora é exercer uma resistência que vai muito além de técnicas e protocolos pré-definidos para exercer a profissão. “Hoje em dia é muito mais caloroso estar na tatuagem do que quando eu comecei. Caloroso porque vejo mais minas tatuando e trazendo outras trajetórias artísticas e implicando isso nas suas tatuagens. [Mas é preciso] persistir também bancando o que a gente quer fazer: o estilo, o jeito de trabalhar. Bancando, eu digo, emocionalmente mesmo, de falar: ‘eu vou fazer isso e pronto’”.
Thais se aconchega nas artes minimalistas e no contraste entre linhas grossas e finas. As cores que suas agulhas pintam assumem diversas formas, mas as preferidas são releituras de obras e de fotos de família. Seu processo não foge à calma consigo mesma e ao respeito com clientes. Artistas como @bimiura, @cebriantatto e @aninha.tattoo a inspiram a criar seus próprios traços. “Acho que construir estilo tem muito a ver com aquilo que eu gosto de consumir e que eu vi que talvez não tinha muito aqui em Campo Grande".
Julia vê a tatuagem como uma forma de fazer com que as pessoas se sintam bem consigo mesmas. “Tatuar para mim é uma responsabilidade enorme, porque é uma coisa que envolve autoestima. Gosto muito dessa ideia de você carregar uma marca e também a parte mais marginal da coisa, de você ser parte de um grupo”.
O processo criativo de Julia é inspirado nos estilos tradicionais e oldschool, que carregam consigo traços grossos, cores sólidas e pintura forte. “A partir do momento que eu realmente entrei nesse universo, eu não pensei mais em nenhum outro estilo, não somente pela estética, mas pela funcionalidade, porque é uma coisa que foi pensada para ser durável, para você carregar uma tatuagem bonita para o resto da vida. O oldschool sempre se destaca”.
Ela tem como influência os tatuadores do começo do século 20, mas lamenta a falta de registro de mulheres tatuadoras da época. Suas inspirações contemporâneas são as brasileiras @brisaissa, @brunayonashiro, @jhenytatts e a colombiana @s.rita_mermaid. “São várias mulheres que eu tenho como exemplo de onde eu quero chegar”, afirma Julia.
Quanto à Sol, não só o pescoço, os braços e as pernas são tatuados, mas todo o seu ser é marcado por essa expressão artística. “É o assunto protagonista da minha vida. Esse ato hoje é a essência, a cor, o cheiro e as presenças dos meus pensamentos. Ele contaminou todo o meu ser, eu vivo para tatuar, é o motivo das minhas escolhas, dos meus estudos, meu sustento e meus sonhos. Sou eu”.
Foi a partir da experimentação de materiais e superfícies que Sol encontrou seu estilo de desenho. Entre suas referências está @minervaslinda. “Gosto de tatuar representações que ainda não sei como são. Me instiga a sessão que há essa abertura para o novo, em que algo se revela, em um momento divino”, relata a artista.
Alerta: Machismo estrutural na área!
Pesquisadoras do Brasil e do mundo estudam sobre a divisão sexual do trabalho, que é caracterizada por meio de uma lógica sexista de que determinadas funções são próprias para homens, criando a ideia de que as mulheres sejam incapazes de realizá-las, enquanto outras são perfeitas para as “donas”, como o trabalho doméstico.
O mundo da tatuagem é um espaço ainda majoritariamente ocupado por homens, o que a divisão sexual do trabalho define como um espaço não aberto à quem não tenha o cromossomo Y em sua formação genética, o que faz com que mulheres como Thais , Julia e Sol precisem lutar diariamente para conseguirem seus espaços e serem tratadas com dignidade. “Eu sinto que, sendo mulher tatuadora, eu preciso ser duas, três vezes melhor do que um homem para poder ter credibilidade”, afirma Julia.
Thais e Julia sentem que a parte mais difícil da profissão está no atendimento ao cliente, pois já passaram por situações de desrespeito e assédio. “Uma vez, um cliente disse que não gostou do desenho e que queria o dinheiro de volta, porque ele já tinha deixado pago, mas ele falava de forma diferente comigo e com o atendente [do estúdio]. Comigo, ele se referia de um jeito e com o atendente era mais polido e educado”, conta Thais.
No caso de Julia, a tatuadora sofreu um assédio vindo por parte de um cliente. “Eu estava tatuando uma frase no peito dele e eu percebia que ele ficava tentando aproximar o rosto dele do meu, e eu estava tatuando com o rosto muito próximo do dele para eu poder enxergar o que estava fazendo. Acho que essa foi a situação mais explícita de assédio que eu passei”, relata.
Alicce Rodrigues, de 24 anos, é acadêmica de jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e é uma mulher tatuada. Ela conta que dos 13 desenhos que habitam em sua pele, apenas um foi feito por uma mulher. Uma adaga colorida corta o peito da acadêmica e possui autoria de Julia. “Pensar sobre esse consumo aliado ao gênero é recente pra mim, só comecei a refletir sobre isso depois de ter mais contato com os feminismos dentro da graduação. Tatuar com a Julia, a primeira vez com uma mulher, foi muito especial e deixei isso bem claro pra ela durante a sessão. Quero tatuar de novo com ela e com outras mulheres, é inegável que a gente passa a se sentir mais confortável apoiando outras mulheres depois que reflete sobre a posição de desvantagem que elas ocupam na maioria das vezes no mercado [de trabalho]. E não por falta de talento”, argumenta a estudante.
Futuros possíveis
“O desejo é de um futuro livre dos cercamentos de preconceitos que ainda são vividos por inúmeras mulheres na tatuagem, para que a gente não precise se sentir menos dentro de um cenário majoritariamente masculino pelo nosso gênero, que possamos ser quem somos dentro de nossos estilos de trabalho e trabalharmos sem ouvir absurdos de colegas e clientes”, vislumbra Thais.
Julia tem visão otimista em relação à presença feminina no cenário local de tatuagem e busca abranger ainda mais o seu público, que hoje é majoritariamente de mulheres e pessoas da comunidade LGBTQIA+. “Espero que cada vez mais vá se quebrando essa ideia de que tatuagem é só para homens e feita por homens, como se só eles tivessem a capacidade e a credibilidade nisso”.
Para Sol, lidar com o “não” é a parte mais difícil, principalmente quando é uma negação de ideias vindo de si mesma, ela se sente esvaziada. Em contrapartida, quando essa inspiração vem e proporciona encontros com as pessoas a tatuadora se sente ainda mais apaixonada pelo processo. “Gosto de compreender, o que é para mim um ato de troca para pensar os símbolos e significados. Adoro também a textura da pele e como ela se enche de tinta, e fica para sempre”.
As jovens e já gigantes tatuadoras fazem parte de um movimento que não está disposto a recuar. Elas defendem seus espaços e ampliam vozes femininas, inclusive as suas próprias. “Eu desejo persistir em como sou hoje, nunca mais ter medo de assumir o que faço ou que eu desenvolvo como arte na tatuagem por simplesmente dar ouvidos a um sistema de “como fazer tatuagem” machista ditado por homens. Posso dizer que eu quero mesmo é me manter assim: para sempre incentivando novas mulheres que desejam ingressar na tatuagem”, finaliza Thais.