Regis Comarella: Diretor de um dos frigoríficos que mais cresce no estado

Sócio-diretor do Frigorífico Boibras conta como a carne de MS conquistou o mercado internacional e alavancou negócios locais

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Por ogg Ibrahim

Ele está no mercado da carne desde 1994, quando veio de Porto Alegre/RS para Mato Grosso do Sul gerenciar uma transportadora e distribuidora de carnes. Tempos depois, abriu uma casa de carnes na Avenida das Bandeiras chamada “Big Beef”, uma de suas marcas de varejo atuais. Mas foi só em 2008 que, junto com o irmão Ronaldo, adquiriu um frigorífico localizado em São Gabriel do Oeste (MS) e deu início a uma fase que vem sendo coroada com sucesso até hoje.

Atualmente, Regis Luís Comarella, gaúcho nascido em Gaurama (RS), comanda o frigorífico junto com o irmão e detém cinco marcas de varejo próprias, com a gestação de mais uma que até a publicação desta edição, provavelmente, já estará no mercado.

Como um apreciador de boas carnes e metido a churrasqueiro nos fins de semana, me interessei por conhecer um pouco mais sobre esse mercado tão disputado no Brasil, principalmente aqui em Mato Grosso do Sul, onde os açougues, cada vez mais, estão cedendo espaço a boutiques de carnes sofisticadas, com cortes especiais oriundos de animais precoces e de alta qualidade. Nossa saborosa conversa me fez levar para casa um corte de Angus para colocar na churrasqueira no meio da semana. Acompanhe!

Ogg Ibrahim: Qual o tamanho da Boibras hoje?

Regis Luís Comarella: Quando compramos o frigorífico, éramos apenas uma empresa de atuação estadual, só podíamos abater e distribuir para o estado. Em 2014, obtivemos o CIF (Certificado de Inspeção Federal) e expandimos nossos horizontes. Hoje abatemos e distribuímos para 60% do mercado regional, 20% para estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, e outros 20% para cerca de 30 países.

OI: Em quais outros mercados, além do Brasil, a Boibrás está presente hoje?

RLC: Estamos no Egito, Uruguai, Arabia Saudita, Japão, Peru e Dubai. Além destes, ainda estamos aguardando autorização para exportar para o Chile, Estados Unidos, Rússia e China. Já recebemos uma vídeo-auditoria dos chineses e apenas aguardamos o sinal verde.

OI: O preço da carne disparou no mercado de um ano pra cá. A que você atribui isso?

RLC: Tivemos uma estiagem muito grande ano passado que acabou com os pastos. As exportações também cresceram muito, por isso estamos com escassez de animais prontos para o abate. Os confinamentos têm suprido as escalas dos frigoríficos, mas como possuem um custo mais elevado em razão do preço do milho, rações, medicamentos, isso refletiu no preço da arroba e, consequentemente, no preço da carne.

OI: Mesmo tendo gado aqui, quase no nosso quintal, ainda acabamos pagando o mesmo que consumidores de outros estados que não têm produção de gado. Por quê?

RLC: Mato Grosso do Sul é um grande produtor de gado, mas abastecido, basicamente, por outros mercados. Quem atende aqui é apenas um, dois frigoríficos, no máximo, que abatem e distribuem. Os terceiros, entre 10 e 12, não tem muito poder de barganha porque apenas distribuem a carne, não abatem, por isso pagamos caro. Como, geralmente, a carne de boi vai para a exportação, acabamos comendo carne de vaca ou de novilha que são mais caras. Além disso, nossa carga tributária também onera demais o produto.

OI: Quando a arroba sobe é bom para o produtor, mas ruim pro consumidor. Dá pra encontrar um equilíbrio?

RLC: Só se houvesse uma melhor oferta do boi gordo, aí é lei da procura e oferta. Mas não vejo esse equilíbrio nos próximos anos. Estamos com poucos bois no pasto, pouca oferta de gado. Conseguimos agregar mais valor quando vendemos para fora em razão da qualidade da carne e, quando a arroba está baixa, o produtor segura o boi no pasto esperando melhora.

OI: Quais os principais obstáculos dos frigoríficos hoje?

RLC: Primeiro essa falta de gado, segundo problemas de caixa. Veja bem: quando compramos o gado para abate, nós temos de pagar o produtor à vista, só que demoramos até 45 dias para receber dos mercados. É preciso ter muito capital de giro. Também temos problemas sérios com mão de obra qualificada, precisamos trazer gente de fora. São vários fatores que atrapalham um pouco o crescimento.

OI: A pandemia parou vários setores no ano passado, mas quase não afetou o agronegócio, pelo contrário. Para os frigoríficos também foi bom?

RLC: No ano passado, tivemos alguns frigoríficos que fecharam as portas por causa da doença, a contaminação de funcionários, etc. Mas, por outro lado, o mercado sentiu um aumento de consumo porque as pessoas ficaram mais tempo em casa. O agro foi o único setor que não parou, registrou um crescimento enorme. A exportação cresceu e o consumo interno cresceu muito. Os frigoríficos que fazem mercado interno tiveram uma demanda ascendente. Foi um bom momento, tivemos aumento de abates, de contratações, abrimos outros mercados de exportação, aumentamos a venda no mercado interno, passamos a vender para São Paulo e quase todos os municípios de MS. Não podemos reclamar da pandemia. Só agora que a arroba subiu é que arrefeceu um pouco.

OI: Hoje vocês têm 5 marcas próprias de varejo e lançaram recentemente o selo “Carne a Pasto”. O que é?

RLC: Hoje nossas marcas são: Angus, Grill, Nobratta (exclusividade do Comper) e estamos lançando a Brius para a rede Bahamas de MG. Ainda temos a seleção Big Beef e, agora, a Carne a Pasto. Ela vem do Angus Certificado, um produto diferenciado, com carne de novilha em torno dos R$ 340 reais a arroba. É um animal acabado no pasto, com ração controlada, criado longe do confinamento. Um produto muito procurado lá fora pela qualidade da sua carne. Animal basicamente criado no campo.

OI: Cresceram muito as chamadas “Boutiques de Carnes”, com cortes especiais que antes não se viam nos açougues. É uma tendência essa sofisticação do açougue?

RLC: O consumidor está aprendendo a comer algo mais selecionado. É lógico que agrega valor maior, o produto final é mais caro para o consumidor, mas tem mais qualidade. Esses locais oferecem cortes diferenciados, produtos mais acabados. Não existe mais carne de segunda por causa dessa qualidade. Também aumentou muito a oferta e produção da carne de Angus, mas não posso deixar de falar também do Nelore por causa da sua precocidade. Incentivos do estado fizeram que o pecuarista produzisse um animal mais jovem, com precocidade, o que melhorou muito a qualidade do Nelore no estado também.

OI: Qual a expectativa de crescimento da Boibras para este ano?

RLC: Pra nós, já está sendo um ano muito bom em crescimento. Só almejamos as liberações para os mercados China e Estados Unidos para atingir um crescimento em torno de 10% este ano. Está além das expectativas! É um momento ímpar, não dá pra reclamar. Tem tudo pra melhorar. Vamos ter mais oferta de bois em breve, temos qualidade, então não tem como dar errado.

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