Cruzeiros no Rio Paraná podem inspirar retomada da navegação turística entre Corumbá e Assunção
Projeto na Argentina reacende debate sobre o potencial dos rios sul-mato-grossenses para o turismo internacional
O anúncio de um novo projeto de cruzeiros fluviais de luxo na província de Misiones, na Argentina, pode servir de inspiração para Mato Grosso do Sul repensar o aproveitamento turístico de suas hidrovias. A iniciativa da empresa Ánima River Cruises prevê a operação de embarcações de alto padrão entre Puerto Iguazú e Posadas, navegando pelo Rio Paraná e conectando atrações como as Cataratas do Iguaçu, a selva missioneira e as reduções jesuíticas. O projeto recebeu apoio do governador Hugo Passalacqua e tem início previsto para 2027.
A proposta evidencia uma tendência observada em diversos destinos internacionais: transformar rios em corredores turísticos capazes de gerar emprego, renda e valorização cultural. Para especialistas em logística e turismo regional, a experiência pode servir como referência para o desenvolvimento de roteiros semelhantes em Mato Grosso do Sul, especialmente no eixo histórico entre Corumbá e Assunção, capital do Paraguai.
Uma rota histórica pouco explorada
Muito antes da consolidação das rodovias, os rios eram as principais vias de transporte da região. Durante os séculos XIX e XX, embarcações navegavam regularmente pelo Rio Paraguai, ligando Corumbá, Ladário, Assunção e até portos mais distantes da bacia platina.
A navegação teve papel fundamental no desenvolvimento econômico do então sul do antigo Mato Grosso. Mercadorias, passageiros e informações circulavam pelas águas, transformando Corumbá em um dos mais importantes centros comerciais do interior da América do Sul.
Com a expansão das rodovias e do transporte aéreo, entretanto, a atividade perdeu relevância e passou a ser utilizada principalmente para transporte de cargas minerais, combustíveis e produtos agropecuários.
Potencial turístico permanece intacto
Apesar da redução do transporte de passageiros, o potencial turístico da região continua expressivo. O trajeto entre Corumbá e Assunção atravessa áreas de grande importância ambiental e cultural, incluindo paisagens do Pantanal, comunidades ribeirinhas, reservas naturais e patrimônios históricos dos dois países.
A criação de cruzeiros fluviais poderia oferecer uma experiência diferenciada para turistas nacionais e estrangeiros, combinando ecoturismo, observação de fauna, gastronomia regional e integração cultural entre Brasil e Paraguai.
O modelo já é amplamente utilizado em rios famosos como o Danúbio, na Europa, o Mississippi, nos Estados Unidos, e o próprio Paraná, que agora busca ampliar sua vocação turística na Argentina.
Rota Bioceânica reforça oportunidade
O debate ganha ainda mais relevância com o avanço da Rota Bioceânica. O corredor internacional está transformando Porto Murtinho em uma das principais portas de integração entre Brasil, Paraguai, Argentina e Chile.
Com a nova infraestrutura logística e o aumento esperado do fluxo internacional de visitantes, cidades como Corumbá, Porto Murtinho e Campo Grande podem se beneficiar de investimentos voltados ao turismo fluvial, ampliando a oferta de experiências no Estado.
Além do transporte de cargas, os rios sul-mato-grossenses poderiam voltar a exercer papel estratégico na mobilidade de passageiros e no fortalecimento do turismo regional, repetindo exemplos bem-sucedidos observados em outras partes do mundo.
Nova visão para velhas rotas
O caso de Misiones demonstra que hidrovias historicamente utilizadas para transporte podem ganhar novas funções ligadas ao turismo de experiência e ao desenvolvimento sustentável.
Para Mato Grosso do Sul, onde o Rio Paraguai permanece como uma das mais importantes vias navegáveis da América do Sul, a retomada de projetos turísticos entre Corumbá e Assunção poderia resgatar uma tradição centenária e abrir novas oportunidades econômicas para a região.
Mais do que uma viagem entre dois destinos, a navegação internacional pelo Pantanal tem potencial para se transformar em um produto turístico único no continente, unindo história, cultura, integração regional e uma das maiores riquezas ambientais do planeta.