600 militares, 12 toneladas de droga e um rio sem muro: a guerra do Exército na fronteira de MS

A Operação Jaguaretê-Oeste mobiliza centenas de soldados entre Corumbá e a Bolívia para barrar narcotráfico e contrabando. Entenda como funciona a fiscalização na fronteira mais porosa do Brasil.

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Seiscentos militares distribuídos entre rios, estradas e postos remotos já apreenderam, neste ano, cerca de 12 toneladas de entorpecentes na faixa de fronteira Oeste do Brasil — um golpe avaliado em R$ 66 milhões para o crime organizado. A Operação Jaguaretê-Oeste, coordenada pelo Comando Militar do Oeste (CMO), é o escudo permanente que o Exército mantém entre Mato Grosso do Sul, Paraná e Santa Catarina contra narcotráfico, contrabando de armas e descaminho nas divisas com o Paraguai e a Bolívia.

O desafio é de escala difícil de imaginar do asfalto de Campo Grande. A faixa de fronteira corresponde a uma faixa de 150 quilômetros ao longo de toda a linha que delimita o território brasileiro na América do Sul — e em Mato Grosso do Sul essa linha não tem muros nem cercas: é só bioma, rio e silêncio. É nesse vazio físico que o crime organizado encontrou suas melhores rotas durante décadas.

Sem muro, sem grade: como o Exército vigia o que não tem barreira

Em Corumbá, a fronteira seca com a Bolívia se resume à BR-262, conhecida como rodovia Ramon Gomes, que conecta a cidade brasileira a Porto Quijarro. O único ponto oficial de controle de veículos nesse trecho é o posto fiscal Lampião Aceso. Mas os militares deixam claro que fixar a fiscalização a um único ponto seria um erro estratégico. "Somos o mais imprevisível possível em relação às posições de abordagem", explicou o General de Brigada Rafael Novaes, responsável pelas operações na região.

A lógica é evitar que traficantes e contrabandistas mapeiem a rotina militar e desenvolvam rotas alternativas ou janelas de tempo para passar ileso. As equipes variam horários, locais e métodos de abordagem continuamente — e as operações não param com chuva, neblina ou madrugada fechada. "Não há barreiras físicas, muros, grades que separam o Brasil da Bolívia. É só dar um passo que a tutela do indivíduo já não nos pertence mais, e não podemos fazer nada", disse o General de Divisão Marcelo Zanon, descrevendo a fragilidade jurídica que torna o trabalho de inteligência ainda mais crítico do que as abordagens físicas.

O rio Paraguai como rota e como campo de batalha

Se a fronteira seca já é complexa, a fronteira fluvial adiciona outra camada de dificuldade. O rio Paraguai é a principal saída de escoamento comercial tanto da Bolívia quanto do Paraguai — países sem litoral que dependem das hidrovias para importar e exportar. Um acordo bilateral firmado em 1856 garante o trânsito dessas embarcações pelo território brasileiro, o que, na prática, criou uma rota legítima que o crime organizado aprendeu a usar como cobertura.

Para fiscalizar esse tráfego, o Exército opera embarcações blindadas, entre elas o Ferryboat, capaz de transportar até 30 militares armados e equipado com dispositivos antiaéreos, além de navegar em alta velocidade. Botes menores complementam as ações dependendo do grau de ameaça avaliado antes de cada interceptação. A Marinha, as polícias Civil, Militar, Rodoviária e Federal, a Receita Federal e o Ministério da Agricultura atuam de forma integrada — e há ainda troca de inteligência com agências internacionais para identificar alvos e traçar estratégias.

O impacto em Corumbá e no restante de Mato Grosso do Sul

Os números revelam a intensidade do trabalho em solo sul-mato-grossense. Somente a 18ª Brigada de Infantaria de Pantanal, sediada em Corumbá, apreendeu desde 1º de junho o equivalente a R$ 2 milhões em entorpecentes e produtos de descaminho. "Buscamos fiscalizar o máximo possível. Não buscamos alguma coisa em específico, uma característica particular. Queremos ter a convicção de que todos os veículos que passam por aqui não estão levando nenhum tipo de substância proibida", afirmou o General Rafael Novaes.

As consequências do que escapa por essa fronteira não ficam presas a Corumbá. Drogas produzidas em escala industrial no lado boliviano e armas sem registro alimentam facções que atuam em Campo Grande, Dourados, nas periferias das cidades do Cone Sul do estado e nas capitais do Centro-Sul do país. Produtos contrabandeados abaixo do preço de mercado corroem o comércio local e a arrecadação tributária do estado. Além da Jaguaretê-Oeste, o CMO coordena ainda as Operações Ágata-Carcará e Ágata-Pantanal, ambas focadas na cooperação entre agências para reforçar o controle fronteiriço no Pantanal. A megaoperação, portanto, não é só uma questão militar: é o que separa a economia e a segurança de Mato Grosso do Sul de uma rota criminosa que, se não for travada no bioma, chega às ruas de dentro do estado.

Fontes: COMANDO MILITAR DO OESTE