Avião de Almir Sater roubado em MS está em aeródromo do narcotráfico na Bolívia

Três aeronaves furtadas em Aquidauana em 2021 foram encontradas no Aeródromo Mondaca, em Santa Cruz, interditado após operação contra o tráfico de drogas.

Por

Divulgação

Quase cinco anos após 18 homens armados invadirem o Aeroporto Municipal de Aquidauana e levarem três aeronaves na madrugada do dia 6 de setembro de 2021, autoridades bolivianas confirmaram o paradeiro das aeronaves: elas estavam escondidas no Hangar 13 do Aeródromo Mondaca, também chamado de La Cruceña, no município de Cotoca, departamento de Santa Cruz. Entre os donos prejudicados está o cantor e compositor Almir Sater, símbolo da cultura pantaneira e um dos artistas mais conhecidos de Mato Grosso do Sul.

A confirmação ocorreu na quarta-feira, 26 de agosto de 2026, e representa o primeiro avanço concreto no caso desde a condenação, em outubro de 2023, de quatro pessoas envolvidas no furto — quando a Justiça determinou o pagamento de R$ 2,5 milhões às vítimas, sem que nenhuma aeronave tivesse sido devolvida até então. O aeródromo boliviano está interditado para voos civis e comerciais desde março de 2022, quando uma operação antinarcótico resultou na apreensão de dezenas de aviões e na prisão de 38 pessoas.

Quem são os donos e quais aviões foram encontrados

As três aeronaves têm proprietários conhecidos no cenário agropecuário e cultural de MS. O Bonanza V35B, de matrícula PT-ING, pertence ao ex-prefeito de Aquidauana Zelito Alves Ribeiro e ao empresário Joel Jacques. O Cessna 182 Skylane PT-KDI é de propriedade do pecuarista José Henrique Trindade. Já o terceiro avião, outro Cessna 182 Skylane, matrícula PT-DST, é o que pertence ao compositor e violeiro Almir Sater, amplamente reconhecido como um dos maiores nomes da música sulista e pantaneira.

Na noite do crime, o grupo armado agiu de forma coordenada e retirou as três aeronaves quase simultaneamente do aeroporto, segundo a investigação. A escolha das aeronaves teria levado em conta a capacidade de carga de cada uma — indicativo de que o roubo tinha finalidade operacional ligada ao transporte ilícito. Já no dia seguinte ao crime, a Força Aérea Brasileira (FAB) foi acionada diante da hipótese de que as aeronaves teriam cruzado a fronteira com a Bolívia.

Três anos de espera por autorização boliviana

Mesmo antes da confirmação desta semana, investigadores sul-mato-grossenses já desconfiavam do destino dos aviões. Em janeiro de 2023, o Departamento de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado (Dracco) aguardava havia cerca de nove meses uma autorização boliviana para verificar se as aeronaves de Aquidauana estavam entre as 66 aeronaves recolhidas no Aeródromo Mondaca durante a operação de 2022. A burocracia internacional atrasou a confirmação por mais de dois anos.

Agora, com a localização oficialmente reconhecida, os proprietários pedem que o governo boliviano permita a entrada de especialistas brasileiros no aeródromo para confirmar formalmente a identificação das aeronaves e iniciar os trâmites de repatriação. Eles também querem saber por quanto tempo os aviões permaneceram no complexo e de que forma chegaram até lá — perguntas que ainda podem revelar conexões mais profundas entre o roubo em Aquidauana e redes de narcotráfico transfronteiriço.

O que o caso revela sobre a fronteira MS-Bolívia

O episódio expõe uma vulnerabilidade crônica da fronteira entre Mato Grosso do Sul e a Bolívia, rota historicamente usada pelo tráfico de drogas e de mercadorias contrabandeadas. A região de Corumbá, principal cidade fronteiriça do estado com o país vizinho, já é alvo frequente de operações policiais envolvendo passagem de entorpecentes, armas e outros bens ilícitos. A facilidade com que 18 homens armados removeram três aeronaves de um aeroporto municipal e as fizeram desaparecer por quase cinco anos evidencia a extensão das rotas usadas pelo crime organizado nesse corredor.

A recuperação física dos aviões ainda depende de procedimentos formais no território boliviano, o que significa que os proprietários — incluindo Almir Sater — podem ter mais meses de espera pela frente. Ainda que a condenação dos envolvidos e a indenização judicial representem algum reconhecimento pelo prejuízo sofrido, nenhum valor substitui a devolução das próprias aeronaves, cujo estado de conservação após quase cinco anos em um hangar interditado é outra incógnita que só a perícia presencial poderá responder.

Fontes: DRACCO, FORÇA AÉREA BRASILEIRA, FOLHA MS