Seca na França derruba produção de açúcar e já pressiona usinas de MS

Com oferta europeia 20% abaixo da média histórica e Índia limitando importações, cotações internacionais sobem e afetam o setor sucroenegético sul-mato-grossense.

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O açúcar voltou a subir nas bolsas internacionais nesta quinta-feira (27), impulsionado por um cenário de oferta cada vez mais apertada: a França, maior produtora europeia da commodity, deve registrar uma safra mais de 20% abaixo da média dos últimos cinco anos por causa da seca e de temperaturas elevadas que se prolongaram pela temporada. O reflexo chegou rápido às telas dos traders — e o impacto interessa diretamente às usinas de Mato Grosso do Sul, que exportam açúcar e etanol e têm seus preços de referência atrelados a Nova Iorque e Londres.

O movimento de alta desta semana vem após uma correção que freou o rali das últimas semanas. Na semana passada, o açúcar em Nova Iorque havia atingido a maior cotação em 15 meses, enquanto Londres marcou o maior patamar em 17 meses. A realização de lucros puxou os preços para baixo, mas os fundamentos continuam apontando para um mercado globalmente deficitário — o que sustenta o interesse dos investidores e aquece as perspectivas para o setor sucroenegético brasileiro.

França na seca: o gatilho europeu que movimenta o mercado global

A associação francesa de produtores de beterraba sacarina e açúcar, conhecida como AIBS, confirmou na quarta-feira (26) que a produção local deve cair expressivamente neste ciclo. A culpada é a combinação de seca prolongada com temperaturas acima do normal, que prejudicou o desenvolvimento das lavouras de beterraba — a matéria-prima do açúcar europeu. A France é o maior produtor do continente, e uma quebra dessa magnitude reduz a oferta disponível para abastecer o mercado regional, que historicamente não depende de importações em grande escala.

O impacto desse cenário já aparece nos preços. Em Nova Iorque, o contrato para outubro era negociado a 14,99 cents por libra-peso, com alta de 40 pontos. O contrato para março de 2027 subia 43 pontos, a 18,99 cents por libra-peso. Em Londres, o contrato de outubro avançava 330 pontos, chegando a US$ 517,30 por tonelada, enquanto o de dezembro subia 730 pontos, a US$ 521,00 por tonelada. Consultorias ao redor do mundo já revisaram para baixo suas estimativas de produção global e passaram a projetar déficits para as próximas safras.

Índia autoriza importação, mas volume real deve ser bem menor

Do outro lado da equação de oferta e demanda está a Índia, segundo maior produtor mundial de açúcar. Na semana passada, a Diretoria Geral de Comércio Exterior indiana autorizou a entrada de até 1 milhão de toneladas de açúcar bruto com isenção de impostos até 31 de outubro — uma medida para reforçar o estoque doméstico antes do pico sazonal de consumo. Mas o mercado já descontou o otimismo inicial: fontes do setor indicam que as refinarias indianas devem destinar apenas cerca de 350 mil toneladas ao mercado interno, bem abaixo da cota aprovada.

Esse número reduz o potencial impacto da medida sobre a demanda internacional. Mesmo assim, o simples fato de a Índia — que não importava volumes significativos desde a safra 2017/18 — voltar a absorver açúcar do mercado externo já é um sinal de que o balanço global está mais pressionado do que o esperado. Para os exportadores brasileiros, incluindo as usinas sul-mato-grossenses, isso representa uma janela favorável de comercialização.

O que esse cenário significa para o setor em Mato Grosso do Sul

Mato Grosso do Sul tem uma das maiores concentrações de usinas sucroenegéticas do Brasil, especialmente nas regiões de Dourados, Naviraí e Maracaju, no Cone Sul do estado. O preço do açúcar exportado por essas unidades segue diretamente os contratos negociados em Nova Iorque e Londres — ou seja, uma alta nas bolsas internacionais se traduz em maior receita em reais para o produtor local, potencializada ainda pelo câmbio favorável ao exportador.

O setor sulmatogrossense acompanha com atenção o avanço dos problemas climáticos nas regiões produtoras europeias, pois déficits no continente tendem a ampliar a demanda por açúcar de origem brasileira. Com o mercado global apontando para safras deficitárias nas próximas temporadas e a oferta europeia comprometida pela seca, as perspectivas de valorização da commodity permanecem no radar das usinas de MS — que, ao contrário da Europa, dispõem de cana-de-açúcar em volume e competitividade para atender ao mercado internacional.

Fontes: AIBS, DIRETORIA GERAL DE COMÉRCIO EXTERIOR DA ÍNDIA